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BOOM DO XISTO PODE TER VIDA CURTA.

O poço Serenity 1-3H, da Chesapeake Energy, perto de Oklahoma City, jorrou petróleo em 2009, produzindo mais de 1,2 mil barris por dia e dando início a uma corrida de perfuração de poços que se estendeu até o Kansas. Agora, o poço fornece menos de 100 barris por dia, segundo registros do Estado. O rápido declínio do Serenity lança luz sobre um segredo muito bem ocultado sobre o boom do petróleo: ele pode não durar.

Os poços de xisto começam a pleno vapor, mas declinam rapidamente, e os produtores estão abrindo novos poços a um ritmo alucinante para manter a produção estável. Nos campos, a necessidade incessante de perfurar é referida como Rainha Vermelha, nome do personagem em “Alice no País dos Espelhos” que diz a Alice: “Você precisa correr o máximo que for capaz, para ficar no mesmo lugar”.

Os EUA estão extraindo 7,8 milhões de barris de petróleo por dia, mais do que produziram nos últimos 25 anos. O petróleo bruto tirado de formações de xisto reduziu a dependência em relação às importações e, desde 1989, este é o momento em que o país está mais perto da autossuficiência energética.

O debate está centrado em se a produção é sustentável. David Hughes, um geocientista e presidente da Global Sustainability Research, analisou o ciclo de vida dos poços de xisto. “A síndrome da Rainha Vermelha está cada vez mais aguda”, diz ele. “Quanto maior a produção, mais poços são necessários para compensar o declínio.”

A Energy Information Administration dos EUA estima que cerca de 29% da produção de petróleo americana hoje vêm das chamadas “formações densas de petróleo”. Essas densas camadas de rocha e xisto são rompidas por jateamento de água, areia e produtos químicos a grandes profundidades, criando fissuras que permitem ao óleo fluir em tubos horizontais, alguns deles com centenas de metros de comprimento.

A produção de poços perfurados nessas formações diminui de 60% a 70% no primeiro ano, diz Allen Gilmer, presidente e executivo-chefe da Drillinginfo, que acompanha o desempenho dos poços nos EUA. A produção nos poços tradicionais leva dois anos para minguar para entre 50% e 55%, e o bombeamento pode ser mantido por 20 ou mais anos.

No campo de xisto Bakken, em Dakota do Norte, de um poço conhecido como Robert Heuer 1-17R foram extraídos 2.358 barris em maio de 2004, quando passou a operar. A produção provou que seria lucrativo abrir poços no campo de Bakken e assim começou uma corrida ao petróleo em Dakota do Norte. A Continental Resources, operadora do poço construiu um monumento para ele. A produção caiu 69% no primeiro ano.

“Eu vejo o xisto mais como uma festa de despedida do que uma revolução”, diz Art Berman, geólogo petrolífero que passou 20 anos na empresa que então era chamada Amoco e hoje tem o seu próprio empreendimento, Labyrinth Consulting Services, em Sugar Land, Texas. “É o último suspiro.”

Muitos discordam. Aubrey McClendon, fundador e ex-presidente e CEO da Chesapeake, qualifica Berman de “geólogo de terceira classe”. Harold Hamm, presidente e CEO da Continental, estimou em 2010 que havia 24 bilhões de barris de petróleo recuperável em Bakken e em outras formações no subsolo da bacia do Williston.

Hamm diz que uma tecnologia aperfeiçoada poderá, no futuro, aumentar esse número para 45 bilhões: “Estamos apenas começando”, diz ele. Desde quando a Continental perfurou o poço Robert Heuer, a produção de petróleo em Dakota do Norte cresceu mais de dez vezes, para 874 mil barris por dia, superando o Equador e o Qatar, os dois membros de menor porte na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

Hughes, da Global Sustainability, estima que os EUA precisam perfurar 6.000 novos poços por ano, a um custo de US$ 35 bilhões, para manter a produção atual. Sua pesquisa também mostra que os poços mais novos não são tão produtivos como os abertos nos primeiros anos do crescimento explosivo, um sinal de que as companhias de petróleo já esgotaram os melhores sítios, tornando muito mais difícil continuar quebrando recordes. Hughes previu que a produção atingirá o pico em 2017 e então cairá para níveis de 2012 num prazo de dois anos.

“O entusiamo exagerado quanto à independência energética dos EUA e ao uso do termo ‘América Saudita’ é ensurdecedor se você ouvir os meios de comunicação”, diz Hughes. “Precisamos ter uma discussão mais aprofundada e inteligente sobre isso.” No dia 7, Abdalla Salem el-Badri, secretário-geral da Opep, disse em uma conferência no Kuait que os produtores de xisto americanos estão “ficando sem sítios ótimos” e que a produção atingirá seu pico em 2018.

Se a expansão acelerada for seguida de um brusco colapso, isso afetará profundamente a sorte de Estados como Oklahoma, que de 1907 a 1923 foi o maior do produtor de petróleo nos EUA. Sua produção aumentou mais de 80% desde que a Chesapeake abriu o poço Serenity nas proximidades da fronteira com o Kansas, motivada pelo preço do petróleo, em média superior a US$ 85 por barril desde o início de 2009. As brocas estão penetrando o xisto de Woodford, do Mississippi Chat e do Mississippi Lime, camadas de depósitos endurecidos deixadas por um mar raso que cobria Oklahoma 350 milhões de anos atrás.

Steve Slawson, vice-presidente da Slawson Exploration, prevê mais alguns anos de crescimento na produção americana, se os preços continuarem altos. Abaixo de US$ 70 o barril, o número de plataformas de extração de petróleo cairá e a produção não ficará muito atrás, diz ele. “Como qualquer outra pessoa com mais de 50 anos e viveu um ciclo de expansão acelerada seguida de colapso brusco, estou preocupado”, diz ele.

As empresas que tomaram muito dinheiro emprestado para financiar a perfuração serão particularmente afetadas se os preços caírem. Como o preço do gás natural começou a recuar, a Chesapeake foi obrigada a vender ativos para bancar a perfuração e a cortar postos de trabalho.

Os habitantes de Oklahoma sabem tudo sobre bolhas. Em Osage Nation, equipamentos para bombeamento de petróleo estão abandonados, enferrujando na pradaria que faz parte do campo petrolífero de Burbank. Descoberto em 1920, o campo teve o auge de sua produção em 1923 – uma média diária de 72 mil barris. Nasceu ali uma cidade com milhares de pessoas, inclusive 300 empresas. Os moradores a batizaram de Whizbang (chispa). Hoje, há apenas algumas fazendas e uma placa de trânsito – Whizbang sumiu na grama. (Tradução de Sergio Blum)
Fonte:Valor Econômico/Asjylyn Loder | Bloomberg Businessweek


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BOOM DO XISTO.

Boom do xisto pode ter vida curta

O poço Serenity 1-3H, da Chesapeake Energy, perto de Oklahoma City, jorrou petróleo em 2009, produzindo mais de 1,2 mil barris por dia e dando início a uma corrida de perfuração de poços que se estendeu até o Kansas. Agora, o poço fornece menos de 100 barris por dia, segundo registros do Estado. O rápido declínio do Serenity lança luz sobre um segredo muito bem ocultado sobre o boom do petróleo: ele pode não durar.

A reportagem é de Asjylyn Loder, publicada por Bloomberg Businessweek e reproduzida pelo jornal Valor, 14-10-2013.

Os poços de xisto começam a pleno vapor, mas declinam rapidamente, e os produtores estão abrindo novos poços a um ritmo alucinante para manter a produção estável. Nos campos, a necessidade incessante de perfurar é referida como Rainha Vermelha, nome do personagem em “Alice no País dos Espelhos” que diz a Alice: “Você precisa correr o máximo que for capaz, para ficar no mesmo lugar”.

Os EUA estão extraindo 7,8 milhões de barris de petróleo por dia, mais do que produziram nos últimos 25 anos. O petróleo bruto tirado de formações de xisto reduziu a dependência em relação às importações e, desde 1989, este é o momento em que o país está mais perto da autossuficiência energética.

O debate está centrado em se a produção é sustentável. David Hughes, um geocientista e presidente da Global Sustainability Research, analisou o ciclo de vida dos poços de xisto. “A síndrome da Rainha Vermelha está cada vez mais aguda”, diz ele. “Quanto maior a produção, mais poços são necessários para compensar o declínio.”

A Energy Information Administration dos EUA estima que cerca de 29% da produção de petróleo americana hoje vêm das chamadas “formações densas de petróleo”. Essas densas camadas de rocha e xisto são rompidas por jateamento de água, areia e produtos químicos a grandes profundidades, criando fissuras que permitem ao óleo fluir em tubos horizontais, alguns deles com centenas de metros de comprimento.

A produção de poços perfurados nessas formações diminui de 60% a 70% no primeiro ano, diz Allen Gilmer, presidente e executivo-chefe da Drillinginfo, que acompanha o desempenho dos poços nos EUA. A produção nos poços tradicionais leva dois anos para minguar para entre 50% e 55%, e o bombeamento pode ser mantido por 20 ou mais anos.

No campo de xisto Bakken, em Dakota do Norte, de um poço conhecido como Robert Heuer 1-17R foram extraídos 2.358 barris em maio de 2004, quando passou a operar. A produção provou que seria lucrativo abrir poços no campo de Bakken e assim começou uma corrida ao petróleo em Dakota do Norte. A Continental Resources, operadora do poço construiu um monumento para ele. A produção caiu 69% no primeiro ano.

“Eu vejo o xisto mais como uma festa de despedida do que uma revolução”, diz Art Berman, geólogo petrolífero que passou 20 anos na empresa que então era chamada Amoco e hoje tem o seu próprio empreendimento, Labyrinth Consulting Services, em Sugar Land, Texas. “É o último suspiro.”

Muitos discordam. Aubrey McClendon, fundador e ex-presidente e CEO da Chesapeake, qualifica Berman de “geólogo de terceira classe”. Harold Hamm, presidente e CEO da Continental, estimou em 2010 que havia 24 bilhões de barris de petróleo recuperável em Bakken e em outras formações no subsolo da bacia do Williston.

Hamm diz que uma tecnologia aperfeiçoada poderá, no futuro, aumentar esse número para 45 bilhões: “Estamos apenas começando”, diz ele. Desde quando a Continental perfurou o poço Robert Heuer, a produção de petróleo em Dakota do Norte cresceu mais de dez vezes, para 874 mil barris por dia, superando o Equador e o Qatar, os dois membros de menor porte na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

Hughes, da Global Sustainability, estima que os EUA precisam perfurar 6.000 novos poços por ano, a um custo de US$ 35 bilhões, para manter a produção atual. Sua pesquisa também mostra que os poços mais novos não são tão produtivos como os abertos nos primeiros anos do crescimento explosivo, um sinal de que as companhias de petróleo já esgotaram os melhores sítios, tornando muito mais difícil continuar quebrando recordes. Hughes previu que a produção atingirá o pico em 2017 e então cairá para níveis de 2012 num prazo de dois anos.

“O entusiamo exagerado quanto à independência energética dos EUA e ao uso do termo ‘América Saudita’ é ensurdecedor se você ouvir os meios de comunicação”, diz Hughes. “Precisamos ter uma discussão mais aprofundada e inteligente sobre isso.” No dia 7, Abdalla Salem el-Badri, secretário-geral da Opep, disse em uma conferência no Kuait que os produtores de xisto americanos estão “ficando sem sítios ótimos” e que a produção atingirá seu pico em 2018.

Se a expansão acelerada for seguida de um brusco colapso, isso afetará profundamente a sorte de Estados como Oklahoma, que de 1907 a 1923 foi o maior do produtor de petróleo nos EUA. Sua produção aumentou mais de 80% desde que a Chesapeake abriu o poço Serenity nas proximidades da fronteira com o Kansas, motivada pelo preço do petróleo, em média superior a US$ 85 por barril desde o início de 2009. As brocas estão penetrando o xisto de Woodford, do Mississippi Chat e do Mississippi Lime, camadas de depósitos endurecidos deixadas por um mar raso que cobria Oklahoma 350 milhões de anos atrás.

Steve Slawson, vice-presidente da Slawson Exploration, prevê mais alguns anos de crescimento na produção americana, se os preços continuarem altos. Abaixo de US$ 70 o barril, o número de plataformas de extração de petróleo cairá e a produção não ficará muito atrás, diz ele. “Como qualquer outra pessoa com mais de 50 anos e viveu um ciclo de expansão acelerada seguida de colapso brusco, estou preocupado”, diz ele.

As empresas que tomaram muito dinheiro emprestado para financiar a perfuração serão particularmente afetadas se os preços caírem. Como o preço do gás natural começou a recuar, a Chesapeake foi obrigada a vender ativos para bancar a perfuração e a cortar postos de trabalho.

Os habitantes de Oklahoma sabem tudo sobre bolhas. Em Osage Nation, equipamentos para bombeamento de petróleo estão abandonados, enferrujando na pradaria que faz parte do campo petrolífero de Burbank. Descoberto em 1920, o campo teve o auge de sua produção em 1923 – uma média diária de 72 mil barris. Nasceu ali uma cidade com milhares de pessoas, inclusive 300 empresas. Os moradores a batizaram de Whizbang (chispa). Hoje, há apenas algumas fazendas e uma placa de trânsito – Whizbang sumiu na grama.


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XISTO: IMPLICAÇÕES ECONÔMICAS E AMBIENTAIS.

 

Xisto: implicações econômicas e ambientais. Entrevista especial com Luiz Fernando Scheibe

“Há um grupo grande de cientistas que trabalham diretamente com a questão da água e que estão legitimamente muito preocupados com a possibilidade de autorização da exploração do xisto no Brasil, sem que tenhamos uma definição clara dos prejuízos que isso irá causar para os aquíferos”, diz o geólogo

Foto: http://bit.ly/17OxuFE

A dependência energética externa dos Estados Unidos e o uso de tecnologias que possibilitam a extração do gás não convencional – conhecido popularmente como xisto – no território estadunidense têm gerado interesse de vários países em explorar essa fonte de energia. Entretanto, segundo o geólogo Luiz Fernando Scheibe, as vantagens econômicas dessa extração são apenas “aparentes”, porque a exploração do gás envolve um processo complexo e “a grande produção” dos poços só ocorre no primeiro ano. “Depois do primeiro ano de extração se produz muito pouco gás. Esses dados, inclusive, estão disponíveis no material da Agência Nacional do Petróleo – ANP. A questão é saber se o período de pagamento do investimento é tão rápido assim”, pontua o geólogo, em entrevista concedida à IHU On-Line por telefone.

De acordo com Scheibe, a comunidade científica brasileira solicitou que o xisto seja excluído do leilão energético programado para os dias 28 e 29 de novembro. Os especialistas argumentam que é preciso estudar com calma as variáveis que estão contidas na exploração. Na avaliação do pesquisador, a extração do gás não convencional “gera problemas ambientais sérios tanto do ponto de vista da contaminação do metano, como da contaminação da água que se utiliza para fazer o fraturamento hidráulico”. E acrescenta: “Querer começar a explorar o xisto no Brasil, sem uma infraestrutura adequada, sabendo que se trata de uma exploração controlada e que toda a grande produção é feita no primeiro ano, é querer se arriscar a produzir o gás e não ter o que fazer com ele. Ou seja, a Petrobras pagaria por um gás que não será consumido”.

Luiz Fernando Scheibe é doutor em Ciências (Mineralogia e Petrologia) pelo Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo – USP. Atualmente é professor aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC.

Confira a entrevista.

Foto: http://bit.ly/14JsEWc

IHU On-Line – Hoje se fala em uma revolução do “xisto” nos EUA. O que isso significa? Trata-se de uma nova revolução energética? Por que o interesse em investir no xisto?

Luiz Fernando Scheibe – Todos sabem que os EUA sempre foram extremamente dependentes de fontes externas de energia, por causa do consumo alto de energia no país.

Os EUA se consideram meio “donos” do mundo e da possibilidade de intervir em qualquer lugar em que os interesses deles, principalmente os energéticos, se encontrarem ameaçados. Essa dependência dos fatores externos fez com que eles, ao se depararem com essa nova tecnologia do fraturamento hidráulico através de perfurações direcionadas, se jogassem nesse novo sistema.

Realmente conseguiram, em grande parte, superar uma parcela dessa dependência de recursos externos de petróleo. Então, a extração do xisto, no caso deles, passa primeiro por uma questão econômica no sentido de que, aparentemente, é um pouco mais barato explorar o xisto. Mas passa também, e principalmente, pela dependência que eles têm das fontes externas de petróleo e pelo fato de eles não precisarem mais ter essa preocupação tão exacerbada com essas fontes. Isso faz com que eles possam, de certa forma, rever a sua forma de agir em relação ao resto do mundo. Por isso, penso que, além das transformações econômicas que estão acontecendo no país, essa exploração do xisto pode trazer também modificações importantes do ponto de vista da geopolítica mundial.

IHU On-Line – O xisto disponível nos EUA é suficiente para abastecer o país?

Luiz Fernando Scheibe – Não! Jamais será suficiente para abastecer todo o país, mas aparentemente pode ser suficiente para suprir o seu déficit energético. Os EUA continuam produzindo muito petróleo e muito gás das fontes chamadas convencionais. A fonte de xisto está sendo responsável por 20 ou 30% de todo o gás que eles utilizam. O xisto pode representar um aumento de 30 a 40% das suas reservas totais de gás. Com essa mudança, eles passam de importadores para autossuficientes, e estão falando até em ser exportadores de gás. No entanto, isso não é muito provável, porque embora eles estejam trabalhando com valores muito baixos para a produção desse gás, a impressão que se tem é de que esses valores estão sendo subsidiados, estão sendo de alguma forma rebaixados por causa da necessidade que eles têm de efetivamente fazer esse tipo de aproveitamento.

IHU On-Line – Como vê o anúncio de que a Agência Nacional de Petróleo – ANP irá abrir no próximo mês de novembro o leilão de áreas para exploração de gás de xisto em todas as regiões do Brasil? Por que o país tem interesse em participar desse processo de extração?

Luiz Fernando Scheibe – Analisei o pré-edital para os leilões e os modelos de contratos que pretendem fazer, os quais deverão ser efetuados nos dias 28 e 29 de novembro. Em um primeiro momento, esses leilões seriam dedicados exclusivamente à exploração de gás convencional dentro do continente. Mas, cada vez mais, aparentemente, esse leilão também será voltado para a extração do xisto, uma vez que nas colocações do pré-edital e do contrato há inúmeras menções ao xisto. Embora se diga que essa exploração será mais controlada, somente por volta da página 50 do edital aparece a expressão “meio ambiente”.

Há um movimento da comunidade científica brasileira solicitando que o xisto seja excluído desse leilão, para que se possa, com mais calma, estudar todas as variáveis que estariam contidas nessa exploração.

IHU On-Line – Qual o modelo de contrato apontado no pré-edital?

Luiz Fernando Scheibe – O modelo de contrato é mais ou menos o mesmo aplicado em outras vendas de áreas para petróleo. O Estado está leiloando grandes áreas e as empresas se habilitam para fazer essa exploração. Elas precisam apresentar um cadastro e mostrar que têm capacidade científica para realizar a extração, mas basicamente devem mostrar que têm capacidade econômica para fazer. O pré-edital divide as empresas em três categorias: aquelas que têm capacidade científica; aquelas que têm capacidade científica limitada; e as que não têm capacidade científica. Neste último caso, supõe-se que essas empresas, caso sejam detentoras das áreas para poder explorar, irão procurar essa capacidade científica com parceiros.

IHU On-Line – Qual o potencial de o Brasil explorar o gás não convencional? Por que o país não precisa entrar nessa disputa?

Luiz Fernando Scheibe – No mundo inteiro, há um questionamento muito forte sobre a questão do xisto. Uma parte desse questionamento é devido ao sensacionalismo com que o assunto foi tratado no primeiro momento, outra parte é por conta da contaminação da água a partir da extração do gás não convencional.

As empresas alegam que tal contaminação ocorreu porque houve algum problema na perfuração ou no revestimento. O caso é que não interessa de onde vem o problema, porque a exploração do xisto gera problemas ambientais sérios tanto do ponto de vista da contaminação do metano, como da contaminação da água que se utiliza para fazer o fraturamento hidráulico.

Fiquei muito impressionado porque nos EUA várias empresas contrataram o serviço de esgoto municipal para supostamente purificar a água utilizada durante a extração do xisto. Acontece que uma agência municipal de esgoto tem uma determinada capacidade e está voltada a um determinado tipo de elemento químico.

Como se vê, os EUA não estão preocupados com a questão ambiental, tanto é que, ainda no governo Bush, isentou-se a exploração do xisto do atendimento das questões ambientais relacionadas com essa exploração. Eles têm um ato específico sobre a água potável, mas quando se trata de xisto essas determinantes não precisam ser atendidas. Isso realmente chama a atenção para esta ânsia de explorar o gás não convencional.

IHU On-Line – Cada poço a ser explorado exige o uso de 15 a 30 milhões de litros de água. O que esse dado significa?

Luiz Fernando Scheibe – Não é que seja tanta água assim. Isso significa, em média, três piscinas olímpicas. O problema é que essa água volta extremamente contaminada e tem de ser tratada. Agora, em outras áreas do país em que temos pouca água, como na Bacia do Paranaíba, por exemplo, que é uma das bacias que está sendo leiloada, essa água pode fazer a diferença no período da seca.

IHU On-Line – O que é o “fracking”? Pode nos explicar como é feita a extração do xisto?

Luiz Fernando Scheibe – O processo é tecnologicamente muito complexo. Nos EUA existem poços com 1.500, até 2.000 metros de profundidade. Quando se chega próximo da camada que contém esse gás, eles derivam esses poços do vertical para o horizontal e furam horizontalmente dentro da rocha. Por ser uma rocha impermeável, só tem gás dentro dela. Em cada perfuração, são feitos de 8 a 10 poços horizontais, como se fosse abrindo um leque dentro da rocha. Depois disso, é introduzido um sistema de água comprimida e feita uma espécie de explosão de pressão, e essa explosão abre fraturas na rocha. A rocha, que era impermeável, torna-se permeável e deixa o gás sair.

Agora, temos de considerar que essa captura é produzida em um raio muito pequeno em relação ao furo original. Então, as primeiras extrações talvez estejam conseguindo explorar todo o gás que tem naquela área. Mas, quando esses poços vão ficando mais distantes uns dos outros, existem partes da rocha que não estão sendo fraturadas. Então, de certa forma, eles estão fazendo uma “lavra ambiciosa”, porque só extraem o gás que pode ser retirado facilmente, deixando uma quantidade enorme de gás na rocha.

Logo, a extração do gás convencional deixará de ser econômica, porque vai ser muito caro fazer uma nova fratura para simplesmente utilizar aquele gás remanescente. Então, trata-se de um processo bastante complexo, que envolve essas perfurações e o fraturamento hidráulico.

IHU On-Line – Qual o valor econômico do gás não convencional?

Luiz Fernando Scheibe – Dizem que estão produzindo o gás a um terço do seu valor internacional. Mas a grande produção de gás de um poço desses se dá apenas no primeiro ano. Depois disso, se produz muito pouco gás. Esses dados, inclusive, estão disponíveis no material da ANP. A questão é saber se o período de pagamento do investimento é tão rápido assim.

Outra questão importante é saber o que fazer com esse gás quando ele atinge a superfície. Os Estados Unidos têm uma rede de gasodutos muito grande, diferente do caso brasileiro, em que a rede só compreende o Leste do país. Além disso, o gasoduto brasileiro vem da Bolívia, depois vai para São Paulo e, depois, para o Sul. Quer dizer, não tem condições de colocar mais gás nesse gasoduto. Então é necessário que haja uma estrutura de aproveitamento desse gás.

Um artigo que li recentemente diz que no estado de Kentucky, nos Estados Unidos, durante um ano inteiro, mais de 40% do gás produzido foi queimado porque não havia condição técnica de aproveitamento. Então, querer começar a explorar o xisto no Brasil, sem uma infraestrutura adequada, sabendo que se trata de uma exploração controlada e que toda a grande produção é feita no primeiro ano, é querer se arriscar a produzir o gás e não ter o que fazer com ele. Ou seja, a Petrobras pagaria por um gás que não será consumido.

IHU On-Line – A França e a Bulgária proibiram a extração do xisto. Como a extração foi tratada nesses países?

Luiz Fernando Scheibe – Pelo que entendi aconteceu uma grande mobilização popular que repercutiu nos parlamentos, os quais assumiram a posição de que não seria o momento de aderir ao xisto. Mas isso não acontece só na França e na Bulgária. Existem muitos estados norte-americanos que proibiram a extração do xisto. Nova York, por exemplo, proibiu, e ela fica ao lado da Pensilvânia, onde é o paraíso do xisto.

No Canadá, alguns estados abriram a porta para o xisto, mas outros, como Ontário, também proibiram o gás. Na África ainda estão discutindo o tema, e na Alemanha não estão explorando. Na Inglaterra, estão tentando fazer as primeiras perfurações e a população está tentando impedir. Então, no mundo todo há um movimento contra isso.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Luiz Fernando Scheibe – Gostaria de acrescentar que há um grupo grande de cientistas que trabalham diretamente com a questão da água e que estão legitimamente muito preocupados com a possibilidade de autorização da exploração do xisto no Brasil, sem que tenhamos uma definição clara dos prejuízos que isso irá causar para os aquíferos. Praticamente todas as figuras que vemos da exploração nos Estados Unidos mostram que eles estão preocupados com os aquíferos mais superficiais, com os aquíferos freáticos.


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EXTRAÇÃO DE XISTO.

Terça, 03 de setembro de 2013

Extração de xisto. O progresso a qualquer custo. Entrevista especial com Suzana Padua

“Muitas medidas que parecem boas para a economia podem ser danosas ao meio ambiente, como o gás de xisto”, adverte a ambientalista.

Foto: revistaescola.abril.com.br

Confira a entrevista.

A extração do gás não convencional, conhecido popularmente como xisto, pode causar impactos ambientais “irremediáveis”, alerta Suzana Padua, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail. Segundo ela, “o processo de exploração do gás de xisto contamina a água por causa do local em que o xisto se encontra, aprisionado em pequenas bolhas de formações rochosas altamente impermeáveis”.

Ela explica: “Enquanto o gás natural e do petróleo ocorrem em estruturas geológicas e nichos próprios, o gás de xisto está impregnado nas rochas e na própria formação geológica. Sua extração tornou-se eficiente e econômica em tempos recentes por conta de avanços tecnológicos. A eficácia nas perfurações horizontais e o procedimento de fraturar a rocha, conhecido como ‘fracking’, injeta, sob alta pressão, grandes quantidades de água, explosivos e substâncias químicas. É nesse processo que ocorrem vazamentos e a contaminação de aquíferos de água doce, que estão localizados acima do xisto”.

Na avaliação da ambientalista, a possível extração de xisto no Brasil pode contaminar o Aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios de água subterrânea do país. “Qualquer país com inteligência e sagacidade em relação ao futuro estaria defendendo o Aquífero Guarani com unhas e dentes, ao invés de planejar formas de danificá-lo por conta de divisas que serão resultado de práticas insustentáveis e irresponsáveis”, frisa.

Suzana Padua é doutora em Educação Ambiental pelo Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília e mestre pela Universidade da Flórida. É presidente do Instituto de Pesquisas Ecológicas – IPÊ e membro da Rede Folha de Empreendedores Socioambientais.

Confira a entrevista.

Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com

IHU On-Line – Hoje se fala em uma “revolução do xisto” nos EUA. O que isso significa? Trata-se de uma nova revolução energética?

Suzana Padua – Não sou especialista neste assunto, mas estou divulgando o tema por considerar de grande risco. Copiar um país como os EUA, que vem buscando meios de alavancar sua economia com práticas que podem ser danosas para o meio ambiente, não me parece ser prudente. A falta de estudos prévios e de uma visão de longo prazo são fatores que preocupam os especialistas nesta área. Foi assim com os agrotóxicos, os transgênicos e tantas outras “tendências” danosas que se implantaram em nosso país – e agora é a vez do xisto. O Brasil copia, adota e depois se torna campeão de uso, dependente das grandes empresas multinacionais que são as fabricantes desses produtos nocivos ao meio ambiente e à saúde humana, mas depois tem de lidar sozinho com as consequências nefastas que permanecem em nosso território. O fato é que muitas medidas que parecem boas para a economia podem ser danosas ao meio ambiente, como o próprio gás de xisto. Sua exploração causa impactos ambientais, que podem ser irremediáveis, o que já foi observado nos locais em que vem sendo extraído. Por conta disso, há países que têm evitado entrar na onda de explorar o xisto, mesmo perdendo a chance de ganhar divisas econômicas. Outros, que querem entrar, vêm encontrando barreiras com a opinião pública, como ocorreu recentemente no Reino Unido, quando a população manifestou-se fortemente contra essa prática.

IHU On-Line – O Brasil está entre os países que possui as maiores reservas de gás não convencional. Como o país deve se posicionar diante da chamada “revolução do xisto”?

Suzana Padua – O Brasil é um dos poucos países do planeta a ter uma posição confortável em termos de recursos naturais. Por isso, deveria estar ditando regras, e não cedendo a pressões econômicas internacionais. Segundo o geólogo e professor emérito da Universidade Federal de Santa Catarina e coordenador do Projeto Rede Guarani/Serra Geral, Luiz Fernando Scheibe, especialista na questão do gás de xisto, nosso país nem precisa de gás neste momento, menos ainda entrar no processo de explorar o gás de xisto sem precisar. Ele defende uma moratória de cinco anos, período em que estudos podem ser realizados para aumentar as chances de se evitar danos maiores, especialmente ao maior patrimônio da atualidade: a água. Qualquer país com inteligência e sagacidade em relação ao futuro estaria defendendo o Aquífero Guarani com unhas e dentes, ao invés de planejar formas de danificá-lo por conta de divisas que serão resultado de práticas insustentáveis e irresponsáveis.

IHU On-Line – Quais as implicações ambientais da extração do gás não convencional (xisto) para o Aquífero Guarani?

Suzana Padua – O processo de exploração do gás de xisto contamina a água. A razão é o local em que o xisto se encontra, aprisionado em pequenas bolhas de formações rochosas altamente impermeáveis. Enquanto o gás natural e o petróleo ocorrem em estruturas geológicas e nichos próprios, o gás de xisto está impregnado nas rochas e na própria formação geológica. Sua extração tornou-se eficiente e econômica em tempos recentes por conta de avanços tecnológicos. A eficácia nas perfurações horizontais e o procedimento de fraturar a rocha, conhecido como “fracking”, injeta, sob alta pressão, grandes quantidades de água, explosivos e substâncias químicas. É nesse processo que ocorrem vazamentos e a contaminação de aquíferos de água doce, que estão localizados acima do xisto. Trata-se, portanto, de uma tecnologia que se baseia em processos invasivos da camada geológica portadora do gás, por meio da fratura hidráulica (shale gas fracking), que resulta em danos ambientais ainda não totalmente conhecidos, mas que podem ser irreversíveis.

IHU On-Line – Como vê a intenção do governo brasileiro de incluir o gás de xisto na matriz energética brasileira?

Suzana Padua – O Brasil parece querer progresso a qualquer custo. Ainda não acordou para o grande valor do que temos em nosso território em termos de biodiversidade e outras riquezas naturais. Deveríamos estar investindo maciçamente em tecnologias sustentáveis e salvaguardando nosso patrimônio natural. Temos feito o inverso, o que é uma lástima. Uma vez que a natureza seja impactada, jamais retorna ao estado original. Mesmo em casos de sucesso, como a recuperação de áreas degradadas, ou a despoluição de rios, por exemplo, o resultado final jamais alcança a diversidade do que havia originalmente. São bilhões de anos de evolução para se ter a vida encontrada em biomas como os encontrados no Brasil, mas para se destruir é rápido. Não que tenhamos de tratar a natureza como intocável. Não é isso. Simplesmente, é optar consciente e responsavelmente por caminhos que levem à vida e não à morte. Todos queremos desenvolvimento, conforto e progresso. Mas que tipo e a que preço é o que precisamos pensar agora. Se investíssemos em alternativas sustentáveis e limpas, chegaríamos a níveis altos de satisfação sem colocarmos em risco o que temos ainda em nosso território. As escolhas determinarão nosso destino, e o xisto é apenas mais um elemento que está mostrando a força do poderio econômico frente à nossa própria preservação nessa Terra. Quando não houver mais água, e oxalá isso não aconteça, espero que lembremos que foi por conta de escolhas irresponsáveis que ficamos à deriva de um destino nada promissor. 


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XISTO MUDA GEOPOLÌTICA DA ENERGIA

Há uma “revolução do xisto” em curso nos Estados Unidos: ela já despertou investimentos de US$ 100 bilhões na indústria americana, derrubou as tarifas do gás e promoveu a abertura de um milhão de postos de trabalho em meio à maior crise econômica do país desde 1929. E essa “revolução” tende a culminar em uma nova geopolítica do petróleo: com um aumento contínuo de sua produção, a América do Norte deverá alcançar sua independência energética, em aproximadamente uma década. “Seremos exportadores e importadores ao mesmo tempo, mas o resultado líquido poderá ser zero”, disse o secretário de Energia dos EUA, Ernest Moniz.

A entrevista é de Daniel Rittner e publicada pelo jornal Valor, 20-08-2013.

Na sexta-feira, após um almoço com dezenas de empresários na sede da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e de reuniões com autoridades brasileiras, ele fez um relato detalhado das transformações energéticas em andamento no país que mais consome combustíveis fósseis no planeta. Com a exploração de recursos não convencionais, o preço do gás natural está hoje em US$ 3,50 por milhão de BTU, menos da metade do que valia uma década atrás. Antigas usinas térmicas movidas a carvão, um insumo caro e poluente, estão sendo progressivamente substituídas por novas plantas que usam gás natural. E a indústria petroquímica vive um período de crescimento com a oferta de matérias-primas associadas ao gás de xisto.

Eis a entrevista.

Qual tem sido o peso do gás de xisto no esforço do governo americano em recuperar a economia dos Estados Unidos?

O gás de xisto tem tido um impacto enorme na economia, no mix energético e no desempenho ambiental dos Estados Unidos. Os preços do gás natural despencaram para US$ 3,50 por milhão de BTU, o que é metade ou até menos da metade de dez anos atrás, no Henry Hub [ponto de distribuição em Louisiana que baliza todo o mercado]. Essa queda de preços tem implicações enormes – deixe-me falar antes das ambientais. O presidente Obama apresentou uma meta de reduzir as emissões de gases-estufa em 17% até 2020, com base nas emissões de 2005, e já atingimos metade dessa meta. Da redução obtida até agora, cerca de 50% foram graças ao uso do gás de xisto no setor elétrico. Isso não ocorreu por causa de políticas públicas, mas pela dinâmica do mercado. Com o gás natural a esse preço, fica mais barato usá-lo como insumo em modernas usinas térmicas, o que gerou uma substituição de antigas termelétricas movidas a carvão.

Na indústria, quais foram os reflexos mais diretos?

Temos uma estimativa de que US$ 100 bilhões foram investidos em nova capacidade industrial, nos últimos cinco ou seis anos, devido à revolução do gás de xisto. Sem falar no que consumidores de gás residencial estão economizando diretamente por causa dos preços menores, por exemplo, para o aquecimento das casas. A nossa projeção é que um milhão de empregos, diretos e indiretos, foram criados com essa revolução do xisto. Os custos de energia caíram para qualquer indústria manufatureira. Mas outra questão importante, perdoe-me pelo tecnicismo, é a riqueza criada com o chamado “wet gas”.

O que é isso exatamente?

Há uma série de líquidos associados à extração do gás natural, como o propeno, o butano e o etano. Eles são indexados aos preços do petróleo e, portanto, valem mais do que o próprio gás. Explico: um barril de petróleo tem o equivalente a seis milhões de BTUs [unidade térmica britânica]. Quando dizemos que o milhão de BTU vale US$ 3,50, você multiplica esse valor por seis e tem US$ 21 por “barril” de gás. Ocorre que o petróleo custa US$ 100. Então, esses líquidos são cotados a um preço cinco vezes maior do que o gás ao qual estão associados. O propeno é uma commodity em si mesma. Mas veja o que ocorre com o etano. Ele é matéria-prima do etileno. E com o etileno você faz plástico. Então, o gás de xisto tem gerado insumos para impulsionar diretamente a indústria petroquímica. Temos visto novas plantas sendo construídas para usar esses insumos [o secretário esclareceu que o cálculo de US$ 100 bilhões inclui essas plantas].

A exploração de reservas de gás e petróleo não convencionais permitirá aos Estados Unidos entrarem na lista de exportadores?

Ainda somos importadores líquidos de petróleo e de gás. No caso do gás, ainda compramos alguma coisa do Canadá, mas isso mudará em poucos anos. No caso do petróleo, aumentamos a produção em cada um dos últimos quatro anos e as nossas importações estão no menor nível em muito tempo. O primeiro impacto disso é no balanço de pagamentos. Há alguns anos gastávamos US$ 1 bilhão por dia nas importações de petróleo. Isso diminuiu em centenas de milhões de dólares. É uma excelente notícia para a economia americana.

Os Estados Unidos também se tornarão autossuficientes em petróleo? Se isso for confirmado, obviamente terá implicações geopolíticas importantes…

A Agência Internacional de Energia prevê que seremos os maiores produtores globais de petróleo em 2020. Hoje em dia a Rússia, com pouco mais de 10 milhões de barris por dia, é a maior produtora. A Arábia Saudita caiu abaixo desse patamar recentemente. Somos os terceiros do mundo neste momento. Mesmo se chegarmos a 10 ou 11 milhões de barris por dia em 2020, talvez ainda estaremos importando algum petróleo, mas é importante notar de onde ele virá. Os nossos maiores fornecedores serão o Canadá e o México. Então, a ideia de uma independência energética da América do Norte, genericamente falando, não é nenhuma loucura. Em um prazo de uma década, ela é possível. Seremos exportadores e importadores ao mesmo tempo, mas o resultado líquido poderá ser zero.

Diante da desaceleração chinesa e do novo cenário energético dos Estados Unidos, qual é o cenário para os preços do petróleo?

Quem já se atreveu a prever um cenário de preços para o petróleo nos dez anos seguintes acabou se mostrando tolo. Os preços podem disparar e recuar, sem uma dinâmica clara. Daqui a dez anos, não dá para saber se a demanda global estará em 80, em 90 ou em 100 milhões de barris de petróleo por dia. Isso faz uma enorme diferença para o mercado e para os preços.

Por que não é possível fazer essa estimativa para a demanda de petróleo?

Veja o nosso caso. Somos os maiores consumidores de petróleo do mundo e há três fatores que se somam para reduzir o uso de combustíveis fósseis nos Estados Unidos. No ano passado, o presidente Obama negociou novos padrões de eficiência energética com as montadoras. Até 2024, haverá a necessidade de fazer 54 milhas por galão de gasolina [23 km/l], o dobro do índice de eficiência atual. Em segundo lugar, a produção de biocombustíveis passou por solavancos ultimamente, mas continua a avançar. Em terceiro lugar, há o avanço dos carros elétricos. Neste ano, pela primeira vez, talvez alcancemos o patamar de 100 mil veículos elétricos vendidos no mercado americano. Ainda é um número pequeno. Foram 40 mil no primeiro semestre, o dobro do mesmo período do ano passado, mas é um crescimento muito rápido. Mesmo nos Estados Unidos, os carros elétricos ainda são muito caros, custam US$ 80 mil. Precisamos de uma redução dos custos da bateria para transformá-los em um produto de massa, ainda é um mercado de nicho, mas é assim que muitos paradigmas foram quebrados.

O quadro que o sr. traçou nesta entrevista foi de independência energética da América do Norte e demanda incerta por petróleo em termos globais. Isso não reduz o interesse de empresas americanas na exploração do pré-sal brasileiro?

Eu acredito que não. Por um fato: as “supermajors” [grandes companhias petrolíferas da iniciativa privada] ainda preferem produzir petróleo ao gás. E isso tem a ver com o que eu disse antes: o barril de óleo vale mais do que seis milhões de BTUs de gás. A realidade é que as “supermajors” têm acesso limitado às reservas mundiais de petróleo. As maiores reservas estão sob o controle de empresas estatais. A Petrobras pode ser uma companhia estatal, mas o Brasil tem um ambiente muito mais competitivo e dá boas-vindas aos investimentos estrangeiros. Uma grande petroleira não pode ir à Arábia Saudita e produzir petróleo. As empresas americanas tiveram sucesso no leilão de maio [a 11ª Rodada da ANP] e certamente terão interesse nos contratos de partilha do pré-sal. Elas estão se acostumando a trabalhar em ambientes geológicos difíceis, como ocorre com o xisto e com o pré-sal.


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REVOLUÇÃO DO XISTO É AMEAÇA À ARÁBIA SAUDITA

Xisto dos EUA é ameaça à Arábia Saudita, diz príncipe em carta

O príncipe Alwaleed bin Talal, investidor bilionário saudita, alertou que a economia de seu país, dependente do petróleo, está cada vez mais vulnerável à concorrência da revolução americana do xisto, revelando uma rara cisão pública sobre a política de governo no seio da família governante do país.
Em carta aberta dirigida a Ali Naimi, o ministro do Petróleo da Arábia Saudita, o príncipe pediu ao governo para acelerar os planos de diversificação da economia.
“Nosso país está enfrentando uma contínua ameaça devido a sua dependência quase total do petróleo”, escreveu na carta, da qual uma cópia foi enviada ao rei Abdullah, tio do príncipe Alwaleed, entre outros.
A carta, que foi acompanhada por várias outras e foi dirigida a autoridades governamentais, inclusive o ministro das Finanças, foi postada na conta do príncipe Alwaleed no Twitter no domingo. As cartas são datadas de 13 de maio, e um porta-voz do príncipe confirmou que são genuínas.
O ministro do Petróleo saudita recusou-se a comentar sobre a carta. A Arábia Saudita é o maior exportador de petróleo do mundo, tendo faturado US$ 336 bilhões com exportação de petróleo em 2012, segundo dados da Opep, o cartel dos produtores de petróleo.
As receitas do petróleo representam 92% do orçamento do Estado saudita, de acordo com o príncipe Alwaleed, e foram responsáveis por quase 90% das receitas de exportações do país, de acordo com a Opep.
Funcionários da Opep procuraram minimizar a ameaça do crescimento da produção de petróleo americana à Arábia Saudita. As importações americanas originadas de membros da Opep caíram para o menor nível em 15 anos no ano passado.
Apesar da queda das exportações destinadas aos EUA, o cartel registrou uma receita recorde de US$ 1,26 trilhão com as exportações de petróleo no ano passado, de acordo com dados publicados pela Opep. Mas a Agência Internacional de Energia prevê que a demanda por petróleo produzido pela Opep caia acentuadamente ao longo dos próximos cinco anos.
“O mundo está cada vez menos dependente do petróleo dos países da Opep, inclusive do reino [saudita]”, escreveu o príncipe Alwaleed.
Falando em Washington em abril, Naimi, que foi ministro do Petróleo do país durante quase 20 anos, disse ver com bons olhos o aumento da produção americana, pois isso contribuirá para estabilizar os preços mundiais do petróleo.
O príncipe Alwaleed rejeitou a avaliação de Naimi, embora tenha focado o aumento da produção de gás dos EUA. “Nós discordamos com Vossa Excelência sobre o que disse e vemos que o aumento da produção de gás de xisto nos EUA como uma ameaça inevitável”, disse o príncipe Alwaleed.
Fonte: Valor Econômico


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PARA ESPECIALISTA, XISTO DEPENDE DE INFRAESTRUTURA.

 

Responsável pelo principal levantamento sobre o potencial de reservas recuperáveis de gás de xisto do Brasil, de 6,4 trilhões de metros cúbicos, a Energy Information Administration (EIA), agência de energia do governo dos Estados Unidos, avalia que, para que o Brasil replique o modelo de sucesso de exploração americano, é preciso uma combinação de fatores, desde a oferta do recurso energético até a mão de obra qualificada e uma rede de distribuição extensa.

A reportagem é de Rodrigo Polito e publicada pelo jornal Valor, 23-05-2013.

“A indústria petrolífera dos Estados Unidos está bem estabelecida e tem acesso favorável a recursos energéticos, além de ter infraestrutura e tecnologia consolidadas”, afirmou Michael Schall, diretor da Divisão de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis da EIA, que veio ao Brasil para participar hoje de um debate sobre gás natural não convencional, em evento promovido pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), em comemoração ao Dia da Indústria, em 25 de maio.

Segundo Schall, a aplicação de subsídios governamentais pode ajudar a reduzir o custo e ampliar a rentabilidade na exploração e produção de gás de xisto. Ele, porém, ressaltou que há muitas outras questões para o desenvolvimento dessa atividade. A principal delas, na sua opinião, é o acesso a recursos logísticos. “Nos Estados Unidos, por exemplo, em muitos locais as rodovias não eram adequadas para suportar o tráfego em grande quantidade de caminhões pesados. Indústria e governo trabalharam juntos então para assegurar que uma melhoria nas rodovias fosse feita”, disse.

Apesar de admitir que o baixo custo do gás de xisto é um fator de competitividade expressivo para a indústria química americana, o diretor da EIA é cuidadoso ao comentar sobre possíveis mudanças no cenário global desse setor.

“A vantagem competitiva da indústria química dos Estados Unidos, baseada em um custo mais baixo da matéria-prima, é significativa, mas não representa uma virada no tabuleiro para os principais produtores químicos do mundo”, afirma. Para ele, países do Oriente Médio, Rússia, China e Índia continuam tendo vantagens no custo de matéria prima para a indústria química, em relação aos Estados Unidos.

O Brasil, porém, não tem a mesma condição. A indústria química nacional é baseada em nafta, que hoje possui grande desvantagem competitiva em comparação com o produto americano, diz Schall.

Com relação ao setor de biocombustíveis, Schall prevê uma maior relação de interdependência entre Brasil e Estados Unidos, nas áreas de produção, consumo e regulação. “Fatores relacionados ao clima, que resultam na oscilação da produção agrícola, têm influência nos preços dos biocombustíveis, o que estimulará o comércio bilateral”, avalia.

O diretor da EIA acredita que a demanda por etanol de cana-de-açúcar e de biodiesel nos Estados Unidos vai crescer significativamente nos próximos anos, porque os dois combustíveis têm baixo nível de emissão de gases do efeito estufa e atendem às crescentes exigências regulatórias americanas.


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E SE O XISTO SUBSTITUIR O OURO NEGRO?

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Fragmentos de xisto (Reprodução/Internet)
 

Se isso acontecer surgirão inevitavelmente mudanças radicais na geopolítica do petróleo

por Mario Guerreiro

 

As abundantes jazidas de xisto permitirão os Estados Unidos se tornarem autossuficientes neste combustível talvez em médio ou longo prazo.

Podem até passar da condição de os maiores importadores de petróleo do mundo à de um dos maiores exportadores de xisto bruto, gasolina e gás extraídos do mesmo.Suponhamos que isso realmente aconteça e surgirão inevitavelmente mudanças radicais na geopolítica do petróleo.

Os países árabes e a Venezuela, verdadeiras monoculturas do petróleo – sua única mercadoria de exportação, que vendem até para poder comprar comida – sofrerão uma crise mais aguda do que a Grande Depressão dos terríveis anos 30.

As consequências dessa crise seriam imprevisíveis. Talvez só não seja tão atingido por ela Dubai (Emirados Árabes), que há bastante tempo criou uma indústria de turismo de luxo, com seus hotéis mais imponentes e requintados do que qualquer hotel europeu e/ou americano.

Mas o que aconteceria com a Arábia Saudita, o Iraque, o Kwait e a Venezuela de Chávez, um pais muito pobre, mas que é o sexto exportador de petróleo bruto do mundo?! Quais seriam os efeitos desses países perderem seu maior comprador e outros que passariam a comprar xisto dele? Ficariam na miséria?

Não necessariamente, pois contariam ainda com um grande comprador: a China, supondo que esta mesma não contasses com grandes jazidas de xisto, coisa que não sabemos dizer se ela possui ou não.

Quanto ao Brasil, ele é um dos países possuidores de grandes jazidas de xisto e poderia se tornar autossuficiente neste combustível. Haveria apenas uma pequena mudança: em lugar da Petrobras surgiria a Xistobras, e o antigo refrão sofreria apenas uma pequena mudança: O xisto é nosso!

* Trechos selecionados do artigo de Mario Guerreiro publicado no Instituto Millenium, parceiro do Opinião e Notícia

 Fontes:Instituto Millenium – E se o xisto substituir o ouro negro?