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GÁS DE XISTO ATRAI INVESTIMENTOS

 

 

A exploração de gás não convencional nos Estados Unidos provocou a retomada dos investimentos de diversos elos da cadeia industrial e tornou o país um dos principais polos de atração de recursos da indústria química e petroquímica global, combinando um mercado consumidor relevante e matéria-prima abundante e barata. “Há seis anos, ninguém falava em novos investimentos nos Estados Unidos, com as empresas indo para a China e para o Oriente Médio, por conta do alto custo de produção. Hoje esse cenário mudou totalmente”, afirma Calvin M. Dooley, presidente do Conselho Americano de Química (American Chemistry Council – ACC), que participou do 19º Encontro Anual da Indústria Química (Enaiq), realizado em São Paulo este mês.

Um levantamento realizado em novembro pela associação, que representa cerca de 85% da produção química americana, aponta que existem 215 projetos com US$ 132 bilhões em potenciais investimentos que poderão sair do papel nos próximos anos nos Estados Unidos. O montante é US$ 72 bilhões maior que o previsto há um ano. Cerca de 60% dos investimentos deverão ser feitos por empresas estrangeiras. “Temos capacidade de suprir gás por 30 anos a preços competitivos, isso é uma vantagem gigantesca, em um momento em que Europa e China ainda estão atrás na exploração de gás não convencional”, destacou. A China ainda terá de construir sua malha de gasodutos, além de iniciar a exploração de gás não convencional em grande escala. No Oriente Médio, a infraestrutura também é obstáculo. “O Brasil tem recursos para ser um player importante no mundo, desde que haja política para isso”.

O preço do gás, metade do que custa o europeu, tem feito indústrias têxteis voltarem a produzir em solo americano e foi um dos fatores que levaram três fabricantes de pneus decidirem por instalar novas fábricas nos Estados Unidos. “A cadeia têxtil começou a voltar para os Estados Unidos, o que era impensável há mais de 15 anos, e estamos com um custo de energia quatro vezes mais competitivo do que o da Índia”.

Até 2023, segundo estimativas da entidade, devem ser investidos US$ 91 bilhões em novos produtos químicos nos Estados Unidos, o que deve render pouco mais de 700 mil empregos. Esses recursos irão provocar outros US$ 274 bilhões em diversos elos da cadeia industrial – da têxtil a de autopeças, o que terá impacto sobre o PIB e a geração de empregos na economia americana. O preço do gás na Europa custa três vezes mais que o americano e a eletricidade é o dobro. “Isso nos dá grande competitividade”.

Para ele, os Estados Unidos tiveram uma regulação eficiente que permitiu que o gás de xisto tivesse impacto sobre a economia e havia um grande conhecimento geológico do subsolo do país. A legislação permitiu acesso a reservas de gás não convencional e assegurou infraestrutura para escoamento da produção. Já as leis estaduais também deram flexibilidade. Segundo estudo do professor Edmar de Almeida, da UFRJ, em mais de 100 anos de indústria de óleo já foram perfurados mais de 5 milhões de poços de petróleo nos Estados Unidos.

No estudo, Almeida aponta que o processo de licenciamento é célere o bastante para se perfurar e fraturar milhares de poços por ano. Em 2011, o órgão regulador do Texas autorizou a perfuração de 22.480 poços. O escoamento e comercialização da produção são facilitados pela existência de uma extensa rede de gasodutos e distribuição e transporte (aproximadamente dois milhões de quilômetros de dutos), com regras de livre-acesso e um mercado liberalizado.

A exploração de gás não convencional provocou uma revolução nos Estados Unidos. Segundo estudo da Deloitte, publicado nos Estados Unidos este ano, o acesso aos hidrocarbonetos presos em formações rochosas fez a produção de petróleo americana pular de cinco milhões de barris por dia em 2008 para 7,4 milhões de barris por dia cinco anos depois, a maior expansão quinquenal da história daquela economia. Esse movimento coincidiu com uma queda da demanda de petróleo e seus derivados dos EUA, de 22 milhões de barris por dia em 2005 para 18,9 milhões barris diários em 7

  1. O déficit comercial relacionado ao setor de petróleo despencou de US$ 386 bilhões em 2008 para US$ 232 bilhões.

Além de melhorar as contas externas, a exploração de gás não convencional tem atraído diversas indústrias para os Estados Unidos, de olho no preço do gás, que está chegando ao mercado a US$ 4 o milhão do BTU, enquanto no Brasil as indústrias chegam a pagar mais de três vezes esse valor. Isso poderá provocar uma mudança geopolítica de investimentos na cadeia química e petroquímica, que poderá fincar bandeiras cada vez mais sólidas nos Estados Unidos. A produção de etileno está em 27 milhões de toneladas nos Estados Unidos e deve ter um acréscimo de 11 milhões nos próximos cinco anos. No Brasil, a produção está em quatro milhões de toneladas.

Fonte: Valor Econômico


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GÁS DE XISTO – YPF quer parceria com a Petrobras.

 

YPF quer parceria com Petrobras para explorar gás de xisto

 

Instalado no 32º andar de um moderno edifício no coração do bairro de Puerto Madero, o presidente da YPF tem em seu escritório uma das mais belas vistas de Buenos Aires. Mas o olhar do engenheiro Miguel Galuccio brilha mais quando fita o pedaço de rocha que serve de enfeite na mesa de centro. Pode parecer exagero a redoma de vidro que a protege. Mas há motivos para aquele aparente pedaço de pedregulho ser tratado como joia. Afinal, foi extraído do lugar que pode se transformar na mina de ouro do país.

– O que é isso?

– Isso é Vaca Muerta!

O depósito de xisto localizado no Sudoeste da Argentina tem nome esquisito, homenagem a uma cordilheira próxima, mas seu potencial em combustíveis não convencionais é gigantesco. Dos 30 mil quilômetros quadrados, a YPF é dona de 12 mil. Mas Galuccio, escalado para comandar a empresa quando foi nacionalizada, há dois anos e meio, está longe de querer exclusividade. Para ele, o sonho de transformar Vaca Muerta num projeto viável depende da capacidade de atrair parcerias com empresas estrangeiras.

Três acordos já foram fechados: com as americanas Chevron e Dow em 2013 e na semana passada com a Petronas, da Malásia. Agora ele corteja um parceiro mais próximo. “Eu ficaria encantado em fazer mais coisas com a Petrobras”, diz.

O escândalo de corrupção que chacoalhou a empresa brasileira é um tema que Galuccio evita comentar. Seu pensamento se volta para o dia em que, um pouco mais livre do problema, a Petrobras se interesse pela proposta de investir em Vaca Muerta para explorar gás. Por que gás? “Porque a Petrobrás já está numa área de exploração de gás em Neuquén (província que abriga Vaca Muerta)”.

Tampouco a reviravolta no cenário mundial, com a drástica queda do preço do petróleo parece desanimar o presidente da YPF. “Em Vaca Muerta, cada projeto envolve concessão de 35 anos. Nesse tempo os preços vão oscilar muito. O que acontece hoje ou o que venha a acontecer com os preços hoje ou nos próximos seis meses para mim é uma foto. O importante é o filme completo.”

Os problemas econômicos na Argentina poderiam representar um obstáculo adicional. O ambiente de um país que enfrenta inflação alta e sérias dificuldades para importar por falta de acesso ao mercado internacional tem sido apontado por vários setores como motivo para engavetar projetos.

Galuccio aceitou conceder uma entrevista ao Valor PRO, serviço de informação em tempo real do Valor, sob a condição de não abordar questões macroeconômicas. Mesmo assim, suas declarações respondem a tais indagações. Apoiado, sobretudo, nos bons resultados que a companhia apresenta ao longo de sua gestão, o plano estratégico do presidente da YPF pode abrir uma trilha importante para a Argentina resolver dois problemas críticos e interligados.

Cada dólar que entra no país hoje ajuda a conter a queda das reservas em moeda estrangeira. Além disso, elevar escala na produção de combustíveis significa reduzir a necessidade de o país importar energia.

A indicação de Galuccio para o cargo, em maio de 2012, tranquilizou o mercado. Sua experiência de trabalho anterior na própria YPF e em outras empresas do setor, inclusive no exterior, conferiu um tom profissional na companhia cujo controle acabara de ser readquirido pelo Estado. 23

Aos 46 anos de idade, o presidente da YPF ressalta seu conceito de nacionalismo: “Quando falamos sobre o sentido nacional nos referimos ao papel da YPF na liderança do futuro energético da Argentina. Não falamos sobre outro tipo de nacionalismo”. Rege na companhia, diz ele, a meritocracia: “Todos os que entram são bons no que fazem e crescem na empresa porque dão resultados.”

Fundada em 1922, a empresa “Yacimientos Petrolíferos Fiscales” (jazidas petrolíferas fiscais) passou para o controle da espanhola Repsol no governo de Carlos Menem, em 1999. Hoje, 51% estão nas mãos do governo e o restante é negociado na Bolsa de Nova York e de Buenos Aires.

Em maio, o governo encerrou longa e polêmica pendência ao pagar à Repsol uma indenização de US$ 5 bilhões em títulos públicos. Galuccio é direto quando questionado sobre os motivos que teriam levado a presidente Cristina Kirchner a apresentar, na época, o projeto de lei que definiu a petrolífera como empresa “de interesse público e sujeita à desapropriação”.

Segundo Galuccio, a YPF foi vítima de um modelo da Repsol que visava usar os recursos obtidos na Argentina para abrir negócios em outras partes do mundo. “Isso pode fazer sentido para um grupo com sede em Madri. Mas, para mim, rompe um dos princípios básicos de negócios, que é reinvestir no lugar onde se obtém um grande volume de “cash”. O modelo poderia funcionar se a Argentina não precisasse de energia. Mas se você tem quase 50% do mercado e não cuida disso em algum momento essa relação vai quebrar, tanto com o governo como com o usuário.”

Uma das suas primeiras decisões foi conter a queda de produção. Para começar, trocou toda a equipe de comando. E buscou no exterior talentos que, como ele, haviam trabalhado na YPF. Alguns deles foram seus colegas na universidade. Foi a paixão por atividades ao ar livre que levou Galuccio a escolher a especialização em petróleo quando saiu da província de Entre Rios para estudar engenharia em Buenos Aires.

Quando aceitou o convite de Cristina para ocupar a presidência da empresa, Galuccio morava em Londres, onde trabalhava na Schlumberger, a maior prestadora de serviços de petróleo do mundo. Ele também comandou a operação da Schlumberger no México e, antes disso, em sua primeira fase na YPF, também trabalhou na Indonésia.

A equipe do novo presidente da YPF seguiu sua vocação. A turma com experiência assumiu a operação e para a área financeira foi contratado um ex-executivo da Merrill Lynch, Daniel González. “Tínhamos de levantar investimentos para elevar a produção e, para isso, precisávamos ter acesso aos mercados”, diz. 24

A primeira investida foi no mercado local. O primeiro lançamento de títulos, de US$ 150 milhões, foi bem recebido. Em seguida, foram lançados US$ 500 milhões e, depois, US$ 1 bilhão. Os investimentos em exploração passaram de US$ 2 bilhões em 2012 para US$ 5,2 bilhões anuais (projetados para este ano).

O resultado financeiro se transformou na melhor propaganda da YPF. Os números crescem desde 2011. Em dois anos, a receita líquida foi elevada em 21,33%. Passou de US$ 13,6 bilhões em 2011 para US$ 16,5 bilhões, em 2013. E nos nove meses acumulados deste ano somou US$ 13,1 bilhões, o que representou um crescimento de 6,4% na comparação com os três trimestres de 2013. Em três anos, a YPF abriu 5,6 mil postos de trabalho. Trata-se da maior empresa da Argentina, com 22 mil empregos diretos e a utilização da capacidade das refinarias está em 94%.

Foi com resultado tão positivo que o plano tático de Galuccio passou, então, para a fase das parcerias. Há um ano e meio a Chevron decidiu investir US$ 1,24 bilhão para explorar petróleo de xisto em Vaca Muerta. Nessa fase, a YPF entrou só como operadora. Na segunda etapa, o investimento, de US$ 1,8 bilhão, foi repartido – US$ 900 milhões de cada lado. Segundo Galuccio, a maior parte dos recursos para investimento sai do fluxo de caixa da companhia.

O executivo de fala mansa e sorridente conta que a negociação com a Chevron foi polêmica: “Tivemos de convencer as pessoas de que a soberania energética da Argentina passa pela necessidade de a YPF associar-se para trazer investimentos de fora. Às vezes a mentalidade nacionalista não entende isso”. O projeto com a Chevron criou o segundo maior depósito de petróleo da Argentina em produção e o maior não convencional fora dos Estados Unidos, com 35 mil barris por dia. O acordo prevê futuras expansões.

O segundo parceiro da YPF foi a americana Dow Chemical, que investirá US$ 120 milhões num projeto piloto para explorar gás de xisto. O terceiro acordo foi fechado na semana passada com a Petronas. Galuccio recebeu o Valor na véspera da viagem a Kuala Lampur, de onde voltou com o acordo por meio do qual a petrolífera da Malásia investirá US$ 475 milhões. A YPF entrará com US$ 75 milhões e será a operadora.

Daqui a um ano a Argentina terá eleito um novo presidente da República. Se depender do apoio dos grupos empresariais e do mercado, Galuccio deverá ser mantido para seguir sua peregrinação em busca de investidores para YPF. Para muitos analistas, Vaca Muerta ainda precisa de bilhões de dólares para se transformar numa mina de ouro. Mas Galuccio já se dará por vitorioso se ajudar a Argentina a recuperar o autoabastecimento energético que perdeu em 2011.

Fonte: Valor Econômico


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GÁS DE XISTO E ENERGIA NUCLEAR

“Acreditamos que uma fatia de 25% a 30% da energia nuclear no setor de energia mundial seria ideal”, diz Serguêi Kirienko.
O baixo custo do gás de xisto não será um obstáculo ao desenvolvimento da energia nuclear no mundo. Essa é opinião do presidente da corporação estatal de energia atômica Rosatom, Serguêi Kirienko, que discursou na 17ª edição do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, na Rússia.
Segundo os participantes de uma das sessões do evento, dos 20 países líderes na produção de gás natural, 15 têm grandes programas de desenvolvimento da energia nuclear.
Os especialistas citam duas razões para explicar isso. Em primeiro lugar, as reservas de urânio vão durar de 100 a 150 anos. Em segundo lugar, ao contrário do petróleo e do gás, as usinas nucleares são menos poluentes se bem cuidadas as questões de segurança.
“É claro que nas regiões onde o metro cúbico do gás de xisto custará entre US$ 30 e US$ 50, ao invés de US$100, ninguém vai construir usinas nucleares”, disse Kirienko. “Porém, a energia nuclear não só pode garantir a estabilidade dos preços dos combustíveis por 60 anos, mas também tem uma grande contribuição a dar para o futuro do país e na criação de empregos.”
Nos anos 1990, acreditava-se que o preço de um barril de petróleo não iria subir acima de US$ 20. Mas há alguns anos, nesse mesmo fórum, foi dito que o preço não iria descer abaixo de US$ 150”, disse Kirienko, para exemplificar a volatilidade dos preços dos hidrocarbonetos.
“Por isso, acreditamos que uma fatia de 25% a 30% da energia nuclear no setor de energia mundial seria ideal”, completou.
Fonte: Gazeta Russa


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E SE A “REVOLUÇÃO DOS GASES DE XISTO” FOR APENAS UMA BOLHA?

E se a “revolução dos gases de xisto” for apenas uma bolha?

 

Por Rodolfo Machado

Do Le Monde Diplomatique

A grande farsa do gás de xisto

por Nafeez Mosaddeq Ahmed

Energia barata versus poluição prolongada: nos EUA, o dilema da exploração de gás e petróleo de xisto não atormentou industriais nem o poder público. Em menos de uma década, essas novas reservas recolocaram o país no crescimento, doparam o emprego e restabeleceram a competitividade. Mas e se for apenas uma bolha?

Se crermos nas manchetes da imprensa norte-americana anunciando um boom econômico graças à “revolução” do gás e do petróleo de xisto, o país logo estará se banhando em ouro negro. O relatório de 2012, “Perspectivas energéticas mundiais”, da Agência Internacional de Energia (AIE), informa que, por volta de 2017, os Estados Unidos arrebatarão da Arábia Saudita o primeiro lugar na produção mundial de petróleo e conquistarão uma “quase autossuficiência” em matéria energética. Segundo a AIE, a alta programada na produção de hidrocarbonetos, que passaria de 84 milhões de barris/dia em 2011 para 97 milhões em 2035, proviria “inteiramente dos gases naturais líquidos e dos recursos não convencionais” – sobretudo o gás e o óleo de xisto –, ao passo que a produção convencional começaria a declinar a partir de… 2013.

Extraídos por fraturamento hidráulico (injeção, sob pressão, de uma mistura de água, areia e detergentes para fraturar a rocha e deixar sair o gás), graças à técnica da perfuração horizontal (que permite confinar os poços à camada geológica desejada), esses recursos só são obtidos ao preço de uma poluição maciça do ambiente. Entretanto, sua exploração nos Estados Unidos criou várias centenas de milhares de empregos, oferecendo a vantagem de uma energia abundante e barata. Conforme o relatório de 2013, “Perspectivas energéticas: um olhar para 2040”, publicado pelo grupo ExxonMobil, os norte-americanos se tornarão exportadores líquidos de hidrocarbonetos a partir de 2025 graças aos gases de xisto, num contexto de forte crescimento da demanda mundial do produto.

Mas e se a “revolução dos gases de xisto”, longe de robustecer uma economia mundial convalescente, inflar uma bolha especulativa prestes a explodir? A fragilidade da retomada, tanto quanto as experiências recentes, deveria convidar à prudência diante de tamanho entusiasmo. A economia espanhola, por exemplo, outrora tão próspera – quarta potência da zona do euro em 2008 –, está hoje em maus lençóis depois que a bolha imobiliária, à qual ela se agarrava cegamente, explodiu sem aviso prévio. A classe política não aprendeu muita coisa com a crise de 2008 e está a ponto de repetir os mesmos erros no campo das energias fósseis.

Em junho de 2011, uma pesquisa do New York Timesjá revelava algumas fissuras no arcabouço midiático-industrial do boomdos gases de xisto, atiçando assim as dúvidas alimentadas por diversos observadores – geólogos, advogados, analistas de mercado – quanto aos efeitos da publicidade das companhias petrolíferas, suspeitas de “superestimar deliberadamente, e mesmo ilegalmente, o rendimento de suas explorações e o volume de suas jazidas”.1 “A extração do gás do xisto existente no subsolo”, escreveu o jornal, “poderia se revelar menos fácil e mais cara do que afirmam as empresas, como se vê pelas centenas de e-mails e documentos trocados pelos industriais a esse respeito, além das análises dos dados recolhidos em milhares de poços.”

No início de 2012, dois consultores norte-americanos soaram o alarme na Petroleum Review, a principal revista britânica da indústria petrolífera. Incertos quanto à “confiabilidade e durabilidade das jazidas de gás de xisto norte-americanas”, eles observam que as previsões dos industriais coincidem com as novas regras da Security and Exchange Commission (SEC), o organismo federal de controle dos mercados financeiros. Adotadas em 2009, essas regras autorizam as empresas a calcular o volume de suas reservas como bem entendam, sem precisar da verificação de uma autoridade independente.2

Para os industriais, superestimar as jazidas de gás de xisto permite pôr em segundo plano os riscos associados à sua exploração. Ora, o fraturamento hidráulico não apenas tem efeitos prejudiciais sobre o meio ambiente como coloca um problema estritamente econômico, uma vez que gera uma produção de vida muito curta. Na revista Nature, um ex-consultor científico do governo britânico, David King, esclarece que o rendimento de um poço de gás de xisto diminui de 60% a 90% após seu primeiro ano de exploração.3

Uma queda tão significativa torna evidentemente ilusório qualquer objetivo de rentabilidade. Depois que um poço se esgota, os operadores devem escavar imediatamente outros para manter seu nível de produção e pagar suas dívidas. Sendo a conjuntura favorável, essa corrida pode iludir durante alguns anos. Foi assim que, combinada com uma atividade econômica decrescente, a produção dos poços de gás de xisto – frágil a longo prazo, vigorosa por algum tempo – provocou uma baixa espetacular dos preços do gás natural nos Estados Unidos: de US$ 7 ou 8 por milhão de BTU (British Thermal Unit) para menos de US$ 3 ao longo de 2012.

Os especialistas em aplicações financeiras não se deixam enganar. “A economia do fraturamento é destrutiva”, adverte o jornalista Wolf Richter na Business Insider.4 “A extração devora o capital a uma velocidade impressionante, deixando os exploradores sobre uma montanha de dívidas quando a produção cai. Para evitar que essa diminuição engula seus lucros, as companhias devem prosseguir bombeando, compensando poços esgotados com outros que se esgotarão amanhã. Cedo ou tarde esse esquema se choca com um muro, o muro da realidade.”

Arthur Berman, um geólogo que trabalhou para a Amoco e a British Petroleum, confessa-se surpreso com o ritmo “incrivelmente acelerado” do esgotamento das jazidas. E, dando como exemplo o sítio de Eagle Ford, no Texas – “É a mãe de todos os campos de óleo de xisto” –, revela que “a queda anual da produção ultrapassa os 42%”. Para garantir resultados estáveis, os exploradores terão de perfurar “quase mil poços suplementares, todos os anos, no mesmo sítio. Ou seja, uma despesa de US$ 10 bilhões a 12 bilhões por ano… Se somarmos tudo, isso equivale ao montante investido para salvar a indústria bancária em 2008. Onde arranjarão tanto dinheiro?”.5

A bolha do gás já produziu seus primeiros efeitos sobre algumas das maiores empresas petrolíferas do planeta. Em junho último, o diretor-presidente da Exxon, Rex Tillerson, queixou-se de que a queda dos preços do gás natural nos Estados Unidos era sem dúvida uma boa notícia para os consumidores, mas uma maldição para sua companhia, vítima da diminuição drástica dos lucros. Se, diante dos acionistas, a Exxon continuava fingindo que não perdera um centavo por causa do gás, Tillerson desfiou um discurso quase lacrimoso diante do Council on Foreign Relations (CFR), um dos fóruns mais influentes do país: “Logo, logo, perderemos até as calças. Não ganhamos mais dinheiro. As contas estão no vermelho”.6

Mais ou menos na mesma ocasião, a companhia de gás britânica BG Group se via às voltas com “uma depreciação de seus ativos referentes ao gás natural norte-americano da ordem de US$ 1,3 bilhão”, sinônimo de “queda sensível em seus lucros intermediários”.7Em 1º de novembro de 2012, depois que a empresa petrolífera Royal Dutch Shell amargou três trimestres de resultados medíocres, com uma perda acumulada de 24% em um ano, o serviço de informações da Dow Jones divulgou essa notícia funesta, alarmando-se com o “prejuízo” causado ao conjunto do setor de ações pela retração do gás de xisto.

 

Da panaceia ao pânico

A bolha não poupa sequer a Chesapeake Energy, que, no entanto, é a pioneira na corrida aos gases de xisto. Esmagada por dívidas, a empresa norte-americana precisou vender parte de seus ativos – campos e gasodutos a um valor total de US$ 6,9 bilhões – para honrar seus compromissos com os credores. “A empresa está indo um pouco mais devagar, muito embora seu CEO a tenha transformado num dos líderes da revolução dos gases de xisto”, deplorou o Washington Post.8

Como puderam cair tanto os heróis dessa “revolução”? O analista JohnDizard observou, noFinancial Timesde 6 de maio de 2012, que os produtores de gás de xisto haviam gasto quantias “duas, três, quatro ou mesmo cinco vezes superiores aos seus fundos próprios a fim de adquirir terras, escavar poços e levar a bom termo seus projetos”. Para financiar a corrida do ouro, foi necessário pedir emprestadas somas astronômicas “em condições complexas e exigentes”, lembrando que Wall Street não se afasta nunca de suas normas de conduta habituais. Segundo Dizard, a bolha do gás deveria, porém, continuar crescendo por causa da dependência dos Estados Unidos desse recurso economicamente explosivo. “Considerando-se o rendimento efêmero dos poços de gás de xisto, as perfurações devem prosseguir. Os preços acabarão por se ajustar a um nível elevado, e mesmo muito elevado, para cobrir não apenas dívidas antigas, mas também custos de produção realistas.”

Não se descarta, contudo, que diversas companhias petrolíferas de grande porte se vejam simultaneamente na iminência da ruína financeira. Caso essa hipótese se confirme, diz Berman, “assistiremos a duas ou três falências ou operações de compra de enorme repercussão; cada qual resgatará seus papéis, os capitais se evaporarão e teremos o pior dos cenários”.

Em suma, o argumento segundo o qual os gases de xisto protegeriam os Estados Unidos ou a humanidade contra o “pico do petróleo” – nível a partir do qual a combinação das pressões geológicas e econômicas tornará a extração do produto bruto insuportavelmente difícil e onerosa – não passa de um conto de fadas. Diversos relatórios científicos independentes, divulgados há pouco, confirmam que a “revolução” do gás não trará nenhum alívio nessa área.

Num estudo publicado pela revista Energy Police, a equipe de King chegou à conclusão de que a indústria petrolífera superestimou em um terço as reservas mundiais de energia fóssil. As jazidas ainda disponíveis não excederiam 850 bilhões de barris, enquanto as estimativas oficiais falam de mais ou menos 1,3 trilhão. Segundo os autores, “imensas quantidades de recursos fósseis permanecem nas profundezas da terra, mas o volume de petróleo explorável pelas tarifas que a economia mundial tem o costume de suportar é limitado, devendo além disso diminuir a curto prazo”.9

A despeito dos tesouros em gás arrancados do subsolo por fraturamento hidráulico, a diminuição das reservas existentes prossegue num ritmo estimado entre 4,5% e 6,7% por ano. King e seus colegas repelem, pois, categoricamente a ideia de que o boomdos gases de xisto poderá resolver a crise energética. Por sua vez, o analista financeiro Gail Tverberg lembra que a produção mundial de energias fósseis convencionais não aumentou depois de 2005. Essa estagnação, na qual ele vê uma das causas principais da crise de 2008 e 2009, anunciaria um declínio suscetível de agravar ainda mais a recessão atual – com ou sem gás de xisto.10 E não é tudo: numa pesquisa publicada em conjunto com o relatório da AIE, a New Economics Foundation (NEW) prevê que o pico do petróleo será alcançado em 2014 ou 2015, quando os gastos com a extração e o abastecimento “ultrapassarão o custo que as economias mundiais podem assumir sem causar danos irreparáveis às suas atividades”.11

Submergidos pela retórica publicitária dos lobistas da energia, esses trabalhos não chamaram a atenção da mídia nem dos políticos. É lamentável, pois podemos entender perfeitamente sua conclusão: longe de restaurar a prosperidade, os gases de xisto inflam uma bolha artificial que camufla temporariamente uma profunda instabilidade estrutural. Quando ela explodir, provocará uma crise de abastecimento e um aumento de preços que talvez afetem dolorosamente a economia mundial.

 

Nafeez Mosaddeq Ahmed

Cientista político, é diretor do Institute for Policy Research and Development, Brighton, Reino Unido

Ilustração: Daniel Kondo

 

 

1 “Insiders sound an alarm amid a natural gas rush” [Especialistas soam um alarme em meio a uma corrida de gás natural], New York Times, 25 jun. 2011.
2 Ruud Weijermars e Crispian McCredie, “Inflating US shale gas reserves” [Inflando as reservas de gás de xisto dos EUA], Petroleum Review, Londres, jan. 2012.
3 David King e James Murray, “Climate policy: oil’s tipping point has passed” [Política climática: o ponto de inflexão do petróleo passou], Nature, Londres, n.481, 26 jan. 2012.
4 Wolf Richter, “Dirt cheap natural gas is tearing up the very industry that’s producing it” [Gás natural sujo e barato está destruindo a indústria que o produz], Business Insider, Portland, 5 jun. 2012.
5 “Shale gas will be the next bubble to pop. An interview with Arthur Berman” [O gás de xisto será a próxima bolha a estourar. Entrevista com Arthur Berman], 12 nov. 2012. Disponível em: <www.oilprice.com>.
6 “Exxon: ‘losing our shirts’ on natural gas” [“Exxon: ‘perdendo as calças’ no gás natural”], Wall Street Journal, Nova York, 27 jun. 2012.
7 “US shale gas glut cuts BG Group profits” [O excesso de gás de xisto nos EUA reduz lucros do BG Group], The Financial Times, Londres, 26 jul. 2012.
8 “Debt-plagued Chesapeake energy to sell $6,9 billion worth of its holdings” [Pressionada pela dívida de energia, a Chesapeake vende US$ 6,9 bilhões de valor de suas participações], Washington Post, 13 set. 2012.
9 Nick A. Owen, Oliver R. Inderwildi e David A. King, “The status of conventional world oil reserves – hype or cause for concern?” [O estado das reservas de petróleo convencional do mundo – publicidade exagerada ou motivo de preocupação?], Energy Policy, Guildford, v.38, n.8, ago. 2010.
10 Gail E. Tverberg, “Oil supply limits and the continuing financial crisis” [Limites do abastecimento de petróleo e a continuação da crise financeira], Energy, Stanford, v.35, n.1, jan. 2012.
11 “The economics of oil dependence: a glass ceiling to recovery” [A economia da dependência do petróleo: um teto de vidro para a recuperação], New Economics Foundation, Londres, 2012.


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GÁS DE XISTO – poços de água afetados.

Gás de xisto afeta água, diz estudo

Pesquisadores encontraram elevados níveis de gases metano, etano e propano em poços de água no Estado americano da Pensilvânia, a menos de um quilômetro de locais onde há extração de gás natural por meio do método conhecido como “fracking”, que explora o combustível existente em rochas de xisto. A descoberta de águas contaminadas sugere que os poços de gás estão vazando, segundo Robert Jackson, da Duke University, principal autor de um estudo divulgado ontem por uma publicação da Associação Nacional de Ciências dos Estados Unidos.
Representantes indústria do setor contestaram a descoberta, dizendo que a ocorrência do metano é natural nas águas dessa região.
As reservas de gás natural nos EUA estão entre as maiores do mundo. Com o advento do “fracking” – ou fraturamento hidráulico para explorar o gás contido nas rochas -, a produção de petróleo e gás natural do país deu um salto na última década.
O governo de Barack Obama incentiva essa tecnologia como uma alternativa ao uso de carvão, que emite mais gases dióxido de carbono, poluente que colabora para o aquecimento global. Porém, ambientalistas têm questionado se o “fracking”, que injeta gases e produtos químicos em rochas a grandes profundidades, interfere na qualidade da água na superfície.
O estudo sugere que isso acontece, em alguns casos. Com base na análise de 141 poços de água potável no norte da Pensilvânia, a pesquisa encontrou 82% por cento das amostras contaminadas com metano, com concentrações seis vezes maiores em residências a menos de 1 km de poços de gás. A concentração de etano foi 23 vezes maior nessas casas. “Isso significa para mim que esses gases estão vazando dos poços diretamente para os aquíferos”, afirmou Jackson.
Ele ressaltou, porém, não ter encontrado radiotividade ou produtos químicos usados no “fracking” nas amostras.
Fonte: Valor Econômico


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GÁS DE XISTO – CIENTISTA FAZ ALERTA.

Cientista alerta para riscos na exploração de gás de xisto

Tema foi discutido em audiência do Centro de Estudos e Debates Estratégicos da Câmara
Deputados e cientista querem evitar o início da exploração de gás de xisto no Brasil por cinco anos, devido aos riscos ao meio ambiente. O tema foi discutido em audiência do Centro de Estudos e Debates Estratégicos da Câmara. Também chamado de “gás não convencional”, esse produto é extraído do xisto, uma rocha metamórfica, que é fraturada por meio do bombeamento hidráulico. O Brasil pretende produzi-lo para suprir a demanda crescente por gás natural, e as reservas do país podem chegar a 500 trilhões de pés cúbicos, maiores do que as do pré-sal.
A Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) já marcou o primeiro leilão de blocos de gás de xisto para o fim de outubro, em bacias de rios como o Paraná e o Parnaíba.
Mas o doutor em geociências da Universidade de São Paulo Luiz Fernando Scheibe alerta que o Brasil ainda não tem estudos científicos que garantam a segurança dessa exploração sem afetar o meio ambiente e, principalmente, o lençol freático e os aquíferos do país.
“A questão não é tanto do gás em si, já que é um gás praticamente igual ao gás natural que a gente já usa, mas o tipo de exploração, que usa quantidades imensas de água. E essa água, quando volta à superfície, está muito poluída”, avisa o cientista.
Segundo ele, “as técnicas de despoluição dessa água custam caríssimo e ainda não há clareza do que seria feito com todo o imenso volume de água contaminada, poluída”. Scheibe sugere o que ele chama de “moratória” de cinco anos até que cientistas aprofundem o conhecimento dessa exploração.
“O Brasil tem gás suficiente para as suas necessidades. Deve-se adotar o princípio da precaução. Entrar nisso seria uma aventura”, acrescenta Scheibe. Ele lembra ainda que grande parte da reserva está na Bacia do Paraná, na mesma região do Aquífero Guarani. “A poluição desse aquífero seria desastrosa.” Segundo Scheibe, os custos da exploração são relativamente baixos nos EUA. Já na Europa, são mais caros por causa da legislação ambiental.
O deputado Pedro Uczai (PT-SC) defende a criação de um grupo de trabalho integrado pela ANP, Petrobras e Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência a fim de analisar a questão do ponto de vista estritamente científico, sem pressões econômicas.
Coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista, o deputado Sarney Filho (PV-MA) concorda com a “moratória” de cinco anos: “O gás de xisto reconhecidamente produz poluição nos aquíferos. Nós temos o Guarani, que é um dos maiores aquíferos do mundo. Temos, recém-descoberto, o maior aquífero do mundo, debaixo de toda a Amazônia. Será que o Brasil precisa disso? O Brasil tem o petróleo do pré-sal, potencial hidrelétrico, potencial solar, potencial eólico. Fazer um leilão sem que a gente tenha noção dos estudos realizados é muito afoito e perigoso.”
O presidente do Centro de Estudos e Debates Estratégicos, deputado Inocêncio Oliveira (PR-PE), encampa a proposta, em nome do “princípio da precaução”. Ele também reforça o uso de fontes alternativa de energia.
“Por isso, essa moratória de cinco anos para que a gente possa chegar a uma conclusão. Eu acho que a gente vai ter o apoio de toda a Casa”, avalia Inocêncio. Ele não descarta enviar um ofício à presidente Dilma Rousseff para reforçar o apelo de cautela na exploração do gás de xisto.

Impacto positivo

O deputado Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP), integrante da Frente Parlamentar em Defesa do Gás, também concorda que, antes da licitação da ANP, é preciso concluir os estudos geológicos e de impacto ambiental.
No entanto, Mendes Thame lembra que o gás de xisto foi fundamental para ajudar os Estados Unidos a enfrentar a recente recessão e afirma que essa exploração também terá impacto positivo na economia brasileira. “Nós estamos pagando hoje quase quatro vezes mais caro do que os EUA pagam. Isso diminui a competitividade da indústria e queimam-se vagas, o que significa destruir o emprego do trabalhador brasileiro aqui e criar na China, Índia, EUA e outros países”, ressalta o parlamentar.
A direção da ANP deve ser chamada ao Centro de Estudos e Debates Estratégicos da Câmara para aprofundar a discussão do tema.
Fonte: Jornal da Energia


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GÁS DE XISTO NO BRASIL.

 

     Proibido em países da Europa, Brasil quer usar fraturamento hidráulico para explorar gás de xisto

 Uma polêmica técnica de extração de gás natural, proibida em alguns países da Europa, será testada pela primeira vez no Brasil. O fraturamento hidráulico (fracking, em inglês) é questionado pela falta de estudos sobre possíveis danos ambientais.

A extração de gás natural por meio de fraturamento hidráulico é considerada uma alternativa diante do esgotamento das reservas naturais mais acessíveis. Para extrair o gás, é preciso “explodir” as rochas. O processo começa com uma perfuração até a camada rochosa de xisto. Após atingir uma profundidade de mais de 1,5 mil metros, uma bomba injeta água com areia e produtos químicos em alta pressão, o que amplia as fissuras na rocha. Este procedimento liberta o gás aprisionado, que flui para a superfície e pode então ser recolhido.

A reportagem é de Magali Moser e publicada por EcoDebate, 21-05-2013.

Uma referênca sobre o tema é um estudo feito pela Duke University, na Pensilvânia, em que os cientistas chamaram a atenção para o aumento da concentração de metano na água potável em locais próximos aos poços usados para o fraturamento hidráulico.

Potencial promissor

De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), com o fraturamento hidráulico o Brasil poderia chegam à 10ª posição no ranking de maiores reservas mundiais de gás de xisto, também conhecido como gás não convencional. A Agência Nacional do Petróleo (ANP) pretende realizar em outubro um leilão sobre a exploração desse gás. As bacias cotadas para entrar nesta rodada são a do Parecis (MT), do Parnaíba (entre Maranhão e Piauí), do Recôncavo (BA), além das bacias do rio Paraná (entre Paraná e Mato Grosso do Sul) e do Rio São Francisco (entre Minas Gerais e Bahia).

Mas embora seja promissora economicamente, a técnica controversa é criticada por ambientalistas. “Há uma clara vontade política para que isso aconteça [a exploração por meio de fraturamento hidráulico], especialmente após as recentes avaliações muito otimistas sobre o potencial de gás de xisto em terra no Brasil”, disse à DW Brasil Antoine Simon, da divisão europeia da organização internacional Amigos da Terra. A entidade assinou, junto com o Greenpeace e outras organizações de proteção ao meio ambiente, uma carta pública em que expõe os motivos para o posicionamento contrário ao procedimento.

Para as entidades, parece não haver qualquer debate sobre as questões ambientais, sociais e de saúde sobre os impactos gerados por essa atividade. A própria ANP reconhece a falta de estudos sobre os impactos ambientais da prática. “O tema fraturamento hidráulico tem causado alvoroço na imprensa mundial, pois seus riscos não foram esclarecidos plenamente”, admitiu a assessoria de imprensa da entidade. Na avaliação da ANP, o método possibilita aumentar a produção de gás natural, mas ainda apresenta altos custos e complexidade nas operações.

Risco de contaminação

Entre os principais impactos ambientais alertados pelos especialistas estão a contaminação da água e do solo, riscos de explosão com a liberação de gás metano, consumo excessivo de água para provocar o fracionamento da rocha, além do uso de substâncias químicas para favorecer a exploração. Ainda há a preocupação de que a técnica possa estimular movimentos tectônicos que levem a terremotos.

Para o coordenador do programa Mudanças Climáticas e Energia da organização ambientalista WWF-Brasil, Carlos Rittl, os aspectos sociais e ambientais são totalmente ignorados: “o único argumento por trás da exploração é o econômico”, observa. “Essa tecnologia não se provou segura em nenhum lugar do mundo.”

Outro ponto questionado pelo especialista é o fato de o Brasil investir na exploração de combustíveis fósseis, em vez de apostar em fontes renováveis. Ele lembra que pelo menos 2/3 das reservas mundiais conhecidas precisam permanecer no subsolo para evitar o aquecimento global.

“O Brasil é muito abundante em fontes de energia de baixo impacto. O governo investe muito menos em energia eólica e solar, em aproveitamento da própria biomassa da cana-de-açúcar e de resíduos de madeira, por exemplo”, considera.

Proibido na França e na Bulgária

O fraturamento hidráulico é motivo de controvérsia em todo o mundo. De acordo com a organização Amigos da Terra, o método é permitido na Polônia e no Reino Unido, mas proibido na França e na Bulgária. Outros países europeus declararam moratória à técnica de extração, com o objetivo de fazer uma análise mais aprofundada sobre os impactos ambientais. É o caso da Irlanda, República Tcheca, Romênia, Alemanha e Espanha.

O Greenpeace se posicionou oficialmente contra o método. A instituição diz ter sérias preocupações com os impactos diretos e indiretos sobre a saúde individual e pública. Segundo a entidade, muitos desses impactos não são só locais, mas podem ser sentidos em nível regional e mesmo global.
Uma das preocupações é de que a técnica possa favorecer movimentos tectônicos que levem a terremotos

Produção de gás de xisto

De acordo com a ANP, há registros de operações de fraturamento hidráulico convencional desde 1950 no Brasil. A agência afirma que, desde então, mais de 6 mil operações foram realizadas utilizando baixas pressões e vazões, sem registros de incidentes graves. Não há experiência no Brasil de realização de fraturamento com volumes de fluido e potência hidráulica nos níveis utilizados nos Estados Unidos, onde se concentra a produção.

De acordo com a IEA, a experiência norte-americana mostra que o gás não convencional pode ser explorado economicamente. A produção de gás de xisto nos Estados Unidos aumentou de forma acentuada a partir de 2005. Cinco anos depois, o gás de xisto já representava mais de 20% da produção de gás do país.