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BRASIL – Uma nova chance para o carvão.

Uma nova chance para o carvão

 

O leilão de energia marcado para o dia 28 de novembro é visto como outra oportunidade para elevar a geração termelétrica a carvão no Brasil, que hoje não chega a 2,5% da matriz de energia elétrica nacional

A escassez da hidreletricidade e da oferta de gás natural dentro do País aumentam as possibilidades de o segmento carbonífero emplacar mais um empreendimento. A última vez que isso ocorreu foi com a usina Candiota 3, complexo da estatal CGTEE com 350 MW de potência instalada, que vendeu energia em um certame realizado em dezembro de 2005 e foi inaugurado em janeiro de 2011.

Ao todo, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) habilitou 821 projetos para o leilão A-5, cuja entrega de energia elétrica é para abastecer o mercado a partir de 2019. As iniciativas somam 29.242 MW de potência instalada e abrangem as fontes eólica, solar, hidrelétrica, biomassa, gás natural e carvão. Quanto a esse último combustível, foram cadastrados nove projetos que totalizam 3,89 mil MW. Três são estruturas que serão implementadas no Rio Grande do Sul e que, juntas, alcançam a capacidade de 1,59 mil MW (correspondente a cerca de 40% da demanda média de energia do Estado).

Os complexos gaúchos pertencem às empresas Eneva (ex-MPX), Tractebel e CTSul. Todos os projetos materializados significariam um investimento superior a R$ 6 bilhões. As duas primeiras companhias pretendem construir suas usinas na região de Candiota e a última no município de Cachoeira do Sul. Para vencerem o certame, e por consequência saírem do papel, os empreendimentos precisam apresentar um custo mais vantajoso do que os seus concorrentes. Conforme fontes que acompanham o cenário, a principal aposta entre as usinas gaúchas concentra-se na da Tractebel, a térmica Pampa Sul.

Neste mês de novembro, a companhia firmou com o governo do Estado protocolo de intenções que prevê diferimento de ICMS na aquisição de equipamentos e insumos que serão utilizados no projeto. “O impacto dos impostos seria muito grande e poderia inviabilizar o empreendimento”, declara o gerente de desenvolvimento de negócios da Tractebel, Guilherme Slovinski Ferrari. A térmica da empresa, que terá 340 MW de potência, deverá absorver um investimento de aproximadamente R$ 2 bilhões. O licenciamento ambiental da usina é para 680 MW, o que permitirá, dependendo das condições, incrementar a capacidade da estrutura futuramente. No pico das obras, deverão ser proporcionados em torno de 2 mil postos de trabalho. O consumo do complexo deverá ser de 1,2 milhão de toneladas ao ano de carvão.

Ferrari revela que o compromisso da companhia que irá construir a usina para a Tractebel é deixar a planta operacional em meados de 2018. O gerente acredita que a dificuldade verificada atualmente pela geração hidrelétrica facilitará o sucesso das termelétricas nesse próximo leilão. “É uma necessidade do governo federal, atualmente estamos vendo a importância do despacho das térmicas para dar sustentação ao setor elétrico brasileiro”, frisa.

Sobre a possibilidade de que com a concretização da Pampa Sul a Tractebel desative a termelétrica Charqueadas (com 72 MW de capacidade instalada e mais de 50 anos de operação), Ferrari informa que esse é um assunto que a empresa ainda está estudando e não há nada definido, por enquanto. O prefeito de Candiota, Luiz Carlos Folador, diz que a expectativa quanto ao sucesso da Pampa Sul é muito positiva e destaca que a região aguarda pelo empreendimento e sua geração de empregos. O prefeito admite que os projetos a carvão da Eneva e da Ctsul deverão enfrentar maiores dificuldades.

O presidente da Ctsul, Douglas Carstens, afirma que a meta do grupo é participar do leilão. Porém, o dirigente acredita que a fonte carbonífera, no Brasil, ainda é vista com maus olhos. “É só comparar 10

com a situação na China (que possui uma forte expansão da geração de energia a carvão)”, sugere o executivo. Carstens ressalta que toda a geração de energia possui algum impacto ambiental, mas o País precisará de diversas fontes para atender ao seu crescimento.

O dirigente enfatiza ainda que a tecnologia das térmicas a carvão, para mitigar os impactos ambientais, evoluiu muito. “Não se pode colocar lado a lado uma usina de 50 anos atrás com uma de agora”, sustenta o presidente da CTSul. A assessoria de imprensa da Eneva, por sua vez, comunica que, por questões estratégicas, a empresa prefere não comentar a respeito de sua participação nos próximos leilões de energia.

Superada a questão do preço, preocupação é com prazos

A participação de projetos a carvão nos últimos leilões de energia sempre foi atrapalhada pelos baixos valores estipulados para a geração desses empreendimentos. Mas, para o próximo certame, o presidente da Associação Brasileira do Carvão Mineral (ABCM), Fernando Zancan, considera o patamar de preço suficiente. Segundo ele, a maior dificuldade é o tempo dado para construir as usinas.

“As condições econômicas estão ok, quanto a isso dá para participar, mas é preciso observar o risco das obras atrasarem”, adverte. Apesar do leilão ser um A-5 (cinco anos para os projetos serem construídos), por ocorrer no último trimestre do ano, Zancan considera-o como uma espécie de “A-4”. Quanto a valores, após o Ministério de Minas e Energia adiar de setembro para 28 de novembro a concorrência, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) tornou público em outubro os novos preços-teto estipulados para o certame. Enquanto as fontes térmicas (biomassa, carvão e gás natural) e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) verificaram uma elevação de valores, a eólica e a solar mantiveram-se estável.

Os projetos térmicos saltaram de um preço de referência de R$ 197,00 o MWh para R$ 209,00 o MWh e as PCHs de R$ 158,00 para R$ 164,00. A eólica e a solar ficaram em R$ 137,00 o MWh. No momento da competição, esses valores vão baixando até restarem os empreendimentos mais competitivos, que acabam comercializando a energia.

Zancan diz que o País precisa aumentar a energia térmica e, no momento, há uma oferta de carvão mais abundante do que a de gás natural. O presidente da ABCM aponta a Pampa Sul como um dos projetos que têm chances de sair vitoriosos do leilão. Porém, para que alguma termelétrica a carvão do Sul do País tenha sucesso na disputa, terá que superar, entre outros obstáculos, a concorrência com o carvão importado que alimentará complexos previstos para o Norte e o Nordeste. Uma das nações que devem abastecer essas iniciativas é a Colômbia. Como o insumo importado baixou de preço, há mais incentivos para os projetos nessas regiões do Brasil.

O dirigente acredita que pelo menos um projeto a carvão venderá energia na próxima sexta-feira. Contudo, adianta que, se nenhum investidor conseguir esse feito, o espírito é “bola para frente”, pois chegará a hora em que as usinas a carvão voltarão a comercializar e gerar energia no Brasil. Zancan revela que uma campanha que o setor carbonífero está propondo ao governo federal, para tentar tornar ainda mais competitivas as iniciativas do segmento, é a redução de impostos.

Combustível fóssil contribui para a segurança energética

Apesar de ser atraente economicamente no meio da geração termelétrica, se comparado à eólica, o carvão verifica um custo mais elevado. No entanto, o diretor da Copelmi Carlos Faria ressalta que, em contrapartida, o material fóssil é uma energia “firme”, ou seja, que pode ser armazenada e não oscila com a variação climática.

“Hoje, há a necessidade de energia firme, então, não somente para este leilão como para os do ano que vem, há possibilidade de que projetos a carvão sejam vitoriosos”, prevê o empresário. Sobre o estigma do impacto ambiental do mineral, o diretor da Colpemi crê que essa imagem vem 11

esmorecendo com o aprimoramento da tecnologia para essa espécie de produção. O empresário acrescenta que a retomada dos projetos a carvão pode ser observada em praticamente todo o planeta.

Faria reitera que é possível ter confiança de que algum novo investimento térmico a carvão saia do papel em breve. “Existe uma grande probabilidade, levando em conta a condição de preço do carvão de Candiota, de entrar no certame e sair vitorioso.” A Copelmi, em parceria com a Eneva, possui os direitos de exploração das jazidas de carvão mineral da Mina de Seival, localizada em Candiota, que terá como principal função alimentar projetos térmicos que serão construídos na região.

De acordo com o coordenador do grupo temático de energia da Fiergs, Edilson Deitos, seria fundamental para o Brasil alcançar uma situação de sobra de energia para não haver perigo quanto ao desabastecimento em períodos de escassez hídrica. Apesar de ver chances de êxito dos empreendimentos térmicos a carvão no Estado, Deitos também manifesta preocupação quanto ao prazo para implementar as usinas no próximo leilão A-5. O integrante da Fiergs recorda que se um participante não conseguir atender ao cronograma estipulado, terá que comprar energia no mercado para cumprir o contrato. “Esse é um risco que acaba sendo colocado no próprio custo da iniciativa”, ressalta Deitos.

CRM investirá para atender a demanda

Estatal gaúcha já tem estratégia para ampliar fornecimento. CRM/DIVULGAÇÃO/JC

Se o projeto Pampa Sul da Tractebel sair vitorioso e se for confirmada a Companhia Riograndense de Mineração (CRM) como a fornecedora de carvão para a usina, a estatal gaúcha já tem planejada a estratégia para se preparar para a tarefa. O presidente da CRM, Elifas Simas, antecipa que, se for fechado o acordo entre as empresas, deverão ser aportados cerca de R$ 250 milhões para preparar uma nova mina em Candiota para atender à demanda.

O dirigente acrescenta que serão necessários em torno de quatro anos para preparar a mina que terá o carvão explorado “a céu aberto”, ou seja, o insumo não se encontra em grandes profundidades como em outros complexos. “Não quero ser pessimista com relação aos outros projetos, mas acho 12

que o da Tractebel andou mais”, aponta. Simas diz que o preço estipulado, de R$ 209,00 o MWH para a geração a carvão, foi melhor do que ele imaginava. “Com certeza, no dia 28 de novembro, teremos uma notícia muito boa para o Rio Grande do Sul”, confia o presidente da CRM.

Simas não teme a concorrência dos importados e enfatiza que o carvão gaúcho é barato, não sofrendo com o câmbio e não tendo problemas geopolíticos. O dirigente acrescenta que a mudança do comando da CRM, após a definição do processo eleitoral, não deverá afetar a continuidade das ações desenvolvidas pela companhia.

Para o presidente da estatal, as termelétricas são sempre fundamentais para o sistema elétrico, pois fazem parte da base do abastecimento de energia. “O que não pode, o que está ruim, é que as térmicas estejam trabalhando tanto”, comenta. Simas recorda que o Rio Grande do Sul detém aproximadamente 90% do total das reservas de carvão do Brasil. “Se queremos o aproveitamento disso, nós gaúchos temos que sugerir políticas públicas capazes de contemplar o uso do mineral”, defende.

O dirigente sabe que o aumento da base térmica onerará as tarifas de energia. Simas sugere que o governo federal faça uma campanha quanto ao melhor aproveitamento da energia elétrica. “Tem que mostrar ao consumidor que a energia, atualmente, ainda tem um preço razoável, mas, no futuro, provavelmente teremos uma eletricidade mais cara”, adverte. O presidente da CRM detalha que esse cenário está se configurando, pois os possíveis aproveitamentos da fonte hídrica estão se esgotando.

Fonte: Jornal do Comércio (RS)