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“A ENCRUZILHADA DA PETROBRAS.

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Por Carlos Rittl*
A Petrobras vive um momento decisivo de sua trajetória. A empresa tenta resgatar suas finanças no momento em que enfrenta uma crise de credibilidade provocada pelo alto endividamento, por perdas com dinheiro desviado pela corrupção e a reavaliação do patrimônio relativo a obras superfaturadas. Qual será a estratégia da empresa quando as principais companhias do setor no mundo adotam medidas para se proteger de um cenário onde o petróleo está perdendo valor como fonte energética? Para onde a Petrobras sinaliza que irá depois do Acordo de Paris (CoP21), que mostrou uma direção nova de transição para um mundo menos intensivo em carbono?
A reformulação do estatuto da empresa, votada na Assembleia Geral Extraordinária de 28 de abril, não traz, infelizmente, nenhuma indicação de resposta a estas perguntas. O presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, tem reafirmado que a exploração do pré-sal permanece como foco prioritário da companhia, devido a seu suposto custo benefício. Não se fala em mudança nem mesmo no investimento a longo prazo de parte do lucro obtido com a exploração de petróleo em energias renováveis. Nesse aspecto, a política não muda muito em relação ao passado recente, quando o Brasil ainda não havia assinado o acordo climático global e ainda se desconhecia o rombo da empresa.
A incestuosa relação da gestão da Petrobras com campanhas políticas levou à propagação do mito de que os recursos do pré-sal seriam o “passaporte para o futuro” do país, independentemente de outras fontes de energia, como o etanol da cana, a solar e a eólica. Mas esse mito começa a cair quando analisamos o atual cenário de preço global de petróleo, os cenários futuros de demanda e as reservas que a empresa tem.
A estatal insiste na viabilidade técnica e econômica do pré-sal “mesmo considerando o atual cenário adverso dos preços do petróleo”. Ocorre que a ampliação de investimentos no pré-sal com o preço do barril abaixo de US$ 40 é de altíssimo risco. Em seu planejamento estratégico, a Petrobras afirma que o preço mínimo para viabilizar economicamente a produção nessa camada geológica é de US$ 45. A companhia destaca que possui campos de petróleo em atividade cujos investimentos já foram amortizados e que, portanto, poderiam se sustentar com o valor do brent de US$ 30 por até três anos.
Ainda é muito, segundo alguns especialistas. Para o enviado especial do Reino Unido para mudanças climáticas, sir David King, o óleo cru hoje custa entre US$ 2 e US$ 6 o barril e este será o óleo que o mundo consumirá nos próximos anos. A produção nas chamadas reservas não convencionais, que incluem o pré-sal, por sua vez, está mais na faixa de US$ 40 a US$ 50 o barril. Quando o “colchão” dos campos amortizados da Petrobras acabar, a empresa voltará à realidade de preço do mercado, onde o pré-sal não consegue competir. Ao mesmo tempo, as alternativas renováveis estarão chegando mais rápido e mais barato que a produção de óleo não convencional. A matemática é fatal para as ambições petroleiras do Brasil.
Mesmo que os preços venham a se recompor no futuro, não podemos esperar o mesmo da demanda por petróleo. Por isso, na opinião de Jeremy Leggett, presidente da Carbon Tracker Initiative, “think tank” em finanças, energia e clima, focar em petróleo como negócio principal, especialmente quando em águas profundas e de extração cara, não faz sentido. Em um mundo que se abre para uma grande transição global para energia limpa, a aposta de que a demanda por petróleo justifica a ampliação das suas áreas de extração ou da infraestrutura para seu processamento é de grande risco. Para ele, a estratégia da Petrobras de se concentrar na exploração do pré-sal parece um “pacto suicida”.
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A favor da tese de Leggett há o caso da Peabody Energy, maior produtora privada mundial de carvão, que entrou com pedido de concordata em abril devido ao seu elevado nível de endividamento, aos preços baixos e à queda da demanda do minério. Outras 50 mineradoras americanas de carvão pediram concordata desde 2012. Ou seja, acabamos de ver, no mundo do carvão, o que acontece para grandes companhias que apostam em demanda e preço errôneos. Não custa lembrar que a Peabody assegurava a todo mundo que a demanda por carvão cresceria.
Para reduzir a dívida, que no final de 2015 chegou a R$ 391,9 bilhões, a Petrobras pretende se desfazer de US$ 57 bilhões em ativos, entre campos de petróleo, fábrica de fertilizantes, participações em térmicas, em gasodutos, eólicas, biocombustíveis e na petroquímica Braskem. Embora a medida vise um retorno imediato, a Petrobras precisa estar atenta ao cenário mundial, particularmente depois do acordo de Paris, que mostrou uma direção nova de transição para um mundo menos intensivo em carbono. A atual crise do petróleo deverá trazer vantagem para o setor das fontes renováveis de energia e o Brasil está bem equipado para isso.
A Petrobras deve agir como empresa do setor de energia e não como empresa de um único e arriscado negócio. Deve buscar maneiras de ultrapassar suas atuais crises de caixa e endividamento com o cuidado necessário para não criar problemas para o próprio futuro. E os ativos fósseis serão um problema em futuro próximo.
* Carlos Rittl é secretário executivo do Observatório do Clima, rede de 41 organizações da sociedade civil que foi formada para discutir as mudanças climáticas no contexto brasileiro.
Fonte: Valor Econômico

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Autor: carlosadoria

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