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A NOVA ORDEM NUCLEAR.

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BRICS e países em desenvolvimento respondem por 79% das usinas atualmente em construção; conteúdo local e independência no fornecimento são as armas dos fabricantes para expandir o setor

Após um hiato de duas décadas, a energia nuclear foi impulsionada nos primeiros anos deste milênio pela preocupação com o aquecimento global e a busca por fontes menos poluentes. Era uma das únicas alternativas de baixa emissão que poderiam fornecer grandes volumes de energia de base em qualquer parte do globo, contrabalançando a intermitência das renováveis que ampliavam rapidamente sua participação na matriz mundial.

O renascimento nuclear, como foi chamado na época, sofreu um duro golpe em março de 2011 com o acidente de Fukushima, no Japão. O efeito sobre o setor foi imediato e provocou uma revisão das normas de segurança e das tecnologias existentes, além do desligamento de plantas e a suspensão dos planos de expansão em diversos países, incluindo o Brasil. As reações mais fortes ocorreram no Japão – que desligou permanentemente seis plantas e provisoriamente todas as 48 usinas nucleares para uma reavaliação das condições e só agora está retomando a operação – e na Alemanha, que chegou a anunciar o encerramento total da atividade nuclear, mas acabou voltando atrás e fechou oito de suas 17 usinas.

Com a opinião pública ainda abalada pelo acidente, os países desenvolvidos, especialmente os europeus, ainda se movem devagar, mas as economias emergentes avançam rapidamente para ampliar seus parques nucleares, mudando o perfil desse mercado e a geografia da indústria.

Atualmente, 75% da capacidade instalada de energia nuclear está em membros da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os “países desenvolvidos”. Este grupo, no entanto, abriga apenas 21% das plantas em construção.

Há 67 usinas sendo instaladas no mundo, com 66,3 GW de capacidade. O grupo dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e os países em desenvolvimento respondem por 79% desses projetos. A grande maioria está localizada na Ásia.

Competição acirrada

Agora, a redução das emissões não é mais suficiente para garantir a expansão desse mercado. Apesar da retomada dos investimentos após Fukushima, o cenário está menos favorável especialmente com a recente queda do preço do petróleo. A commodity barata torna mais acessíveis as térmicas a gás natural e óleo, tirando a competitividade da fonte nuclear. Estas fontes podem não ter o mesmo apelo ambiental, mas quando a diferença de preços cresce, fica mais difícil justificar os investimentos somente com base nesse argumento.

Além disso, o custo das renováveis continua caindo, o que, auxiliado por subsídios governamentais, mina a competitividade de fontes como a nuclear, ressalta Agneta Rising, diretora geral da Associação Mundial de Energia Nuclear (WNA, do inglês). “Avanços em áreas como sistemas residenciais de armazenamento de energia e medidores inteligentes também estão levando a um reexame da necessidade de energia de base como a nuclear”, afirma.

Além do custo

A resposta dos fabricantes é, além de reduzir custos, oferecer outras vantagens como contrapartida para os países que optarem pelo investimento.

O setor terá que usar todos os argumentos que puder para conquistar novos mercados e garantir a expansão projetada para os próximos anos. A Agência Internacional de Energia (AIE) estima que a energia nuclear deva ampliar sua participação na matriz dos atuais 11% para 18% em 2050. Para 33

isso será necessário mais que dobrar nesse período a capacidade instalada no mundo, hoje de 378 GW.

As principais armas para arrebanhar compradores são a nacionalização das usinas e a promessa de independência e estabilidade de fornecimento. Um pacote especialmente atraente para economias emergentes, que se tornaram mais exigentes.

“Os clientes hoje querem todos os benefícios”, afirmou Sergei Kiriyenko, presidente da estatal russa Rosatom durante a AtomExpo, fórum que reuniu mais de 2 mil pessoas de 47 países em Moscou. “É diferente de dez anos atrás quando se fazia contratos turn-key. A medida hoje é o preço do kWh. E é preciso incluir todos os custos: financiamento, transferência de tecnologia, empregos qualificados, treinamento, combustível, pesquisa, educação, descomissionamento. Hoje a responsabilidade não termina com a entrega da usina. Continua por todo o ciclo de vida.”

E esse tempo está aumentando. Uma das tendências para os próximos anos é a ampliação do ciclo de vida das usinas para até 100 anos, com o uso de novos materiais e configurações dos equipamentos e sistemas. O objetivo é reduzir o custo da energia e aumentar a estabilidade do fornecimento.

A ideia é se contrapor aos combustíveis fósseis, que sofrem grande variação de preços ao longo dos anos e também enfrentam riscos de fornecimento de acordo com o cenário geopolítico. Um país mais temeroso de instabilidades externas poderia, por exemplo, comprar e estocar o combustível necessário para todo o período de operação da planta, o que não seria viável no caso do gás ou petróleo, seja pelo desembolso preço ou pelo volume ocupado.

“A estabilidade dos preços e do fornecimento da energia contribuem para a estabilidade política e social”, defende Philippe Knoche, CEO da Areva. Segundo o executivo, a indústria deve fomentar parcerias não só entre fornecedores, governos e estatais, mas entre os próprios competidores. “Isso tem sido essencial para atender às exigências dos consumidores, de tecnologia, transferência de conhecimento e da cadeia de suprimento.”

BRICS

A nacionalização da tecnologia não é novidade para a indústria e tem sido usada há décadas. Hoje, no entanto, a nacionalização se tornou indispensável em qualquer negociação.

Parte da expansão atual, inclusive, é capitaneada por fabricantes mais novos, como a Kepco, da Coréia do Sul, que iniciou seu programa nuclear na mesma época que o Brasil e hoje é exportador, com duas usinas em construção e outras duas contratadas nos Emirados Árabes Unidos, de 1.345 MW cada.

No Brasil, o objetivo é ampliar o índice de nacionalização nos próximos anos. A usina de Angra 2 tem 50% de conteúdo local e a de Angra 3, em construção, deve chegar a 54% quando estiver concluída. A meta do governo é alcançar 70% nas quatro usinas previstas para serem instaladas até 2030.

Entre os BRICS, o país está mais avançado apenas que a África do Sul, que opera duas usinas com 1830 MW e não tem indústria local. O governo, no entanto, tem planos ambiciosos e planeja construir oito plantas, com 9,6 GW até 2030, com índice de nacionalização crescente. Um acordo com esse objetivo foi assinado com a Rosatom.

Os russos têm sido os mais agressivos na busca por novos mercados e hoje a Rosatom é a maior exportadora, com 11 projetos contratados fora do país e US$ 100 bilhões em encomendas na carteira. Desses, oito estão em construção, na Bielorússia (2 x 1200 MW), Ucrânia (2x 950 MW), Eslováquia (2 x 440 MW) e China (2 x 1060 MW). Além disso, constrói outras dez plantas, com 8,3 GW, na Rússia, segundo país com mais obras do tipo no mundo.

Quem lidera a lista é a China, com 24 unidades em construção, somando 23,8 GW. O país é um exemplo bem-sucedido de transferência de tecnologia, com as estatais CNNC, CGN e SNPTC 34

capitaneando os projetos. Impulsionados pelo enorme mercado interno, os chineses planejam uma política arrojada de exportação para os próximos anos como já fazem em outras áreas, mas ainda não conseguiram grandes contratos. Atualmente, a CNNC constrói duas plantas no Paquistão, com 315 MW cada, e já fechou acordo para a instalação da Atucha 3 (750 MW), na Argentina. Já a CGN vai construir duas plantas na Romênia, com 720 MW cada.

Novos e antigos mercados

Levantamento da WNA aponta que 45 países estudam adotar a energia nuclear, mas apenas 15 têm planos consistentes e devem ter impacto nas encomendas num futuro próximo. Com exceção da Itália, todos são emergentes e ficam no Oriente Médio, Leste Europeu e na Ásia. Os mais avançados são os Emirados Árabes Unidos e Bielorússia, que já têm unidades em construção. Turquia e Lituânia já contrataram as usinas e o restante já estabeleceu o programa de contratação, mas ainda não fechou os acordos.

Mesmo nos mercados tradicionais, há possibilidade de crescimento significativo. O próprio Japão manteve os projetos de construção de duas usinas – Ohma 1 e Shimane 3, com 1.325 MW cada – apesar da comoção e das restrições pós-Fukushima. As plantas são instaladas pela parceria GE-Hitachi.

Os Estados Unidos chegaram a ensaiar uma forte retomada do setor após quase três décadas sem projetos relevantes, mas a crise econômica e, principalmente, o abundante shale gás barato acabaram arrefecendo o mercado. Mesmo assim, o país é o quinto maior em número de usinas em construção, com cinco plantas, somando 5,6 GW de capacidade. A Westinghouse, controlada pela japonesa Toshiba, é responsável por todas as obras.

Sem gás barato, o Reino Unido deve ser responsável por boa parte das encomendas nos próximos anos. O país pretende instalar 11 unidades, com 15,6 GW de capacidade nuclear até 2030, sem restrições à participação e investimento estrangeiro. Mesmo após o acidente, a população tem uma visão positiva da fonte e 63% são favoráveis à energia nuclear, segundo pesquisa feita pelo governo em 2012.

“A redução de emissões ainda é o principal fator que motiva a aprovação da nuclear pelo público”, afirma Tim Yeo, ex-chairman do Comitê de Energia e Clima da Câmara dos Comuns do Parlamento britânico. O preço ainda é um problema, mas será minimizado com o encarecimento das emissões de CO2 nos próximos anos.”

Entraves

Além do preço e da opinião pública, o setor tem outros desafios para ganhar espaço. Entre as principais barreiras para projetos nucleares estão o custo de instalação alto, o licenciamento complexo e demorado, o custo de descomissionamento e a destinação dos rejeitos radioativos, que ainda é um problema para o qual não há solução definitiva.

“A indústria tem muitos desafios, mas também muitas oportunidades”, diz Rising, da WNA. “Se estabelecermos corretamente nossas prioridades podemos esperar que a energia nuclear tenha um papel mais importante no futuro mix de geração de baixo carbono.”

Fonte: Revista Brasil Energia

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Autor: carlosadoria

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