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PRÉ-SAL – O potencial petrolífero brasileiro além do pré-sal.

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O potencial petrolífero brasileiro além do pré-sal – O potencial petrolífero brasileiro além do pré-sal

O potencial petrolífero brasileiro além do pré-sal (final)

Recursos não convencionais das bacias terrestres

O que são recursos petrolíferos não-convencionais? A grosso modo são produções de óleo e gás a partir de rochas que tradicionalmente não seriam consideradas como rochas reservatórios capazes de expelir volumes comerciais destes hidrocarbonetos. Acumulações convencionais produzem óleo e gás a partir de rochas porosas e permeáveis tais como arenitos e carbonatos. Acumulações não-convencionais produzem volumes significativos de gás a partir de arenitos fechados e não permeáveis (tight gas sandstones), óleo e gás a partir de rochas finas como folhelhos (shale oil e shale gas), gás a partir de carvão mineral (coal-bed methane), ou óleo e gás a partir de arenitos e carbonatos fechados, mas extremamente fraturados (fractured reservoirs).

Mas, como isto é possível? Convencionalmente e tradicionalmente, produções comerciais a partir de tais rochas não era possível até há alguns anos atrás. Mas, o avanço de tecnologias especiais tais como a perfuração abundante e multi direcional de poços horizontais, o fraturamento hidráulico das rochas fechadas, a sintetização de fluidos complexos que auxiliam na abertura e na manutenção das fraturas e o barateamento destas técnicas promoveram uma reviravolta na indústria petrolífera dos Estados Unidos. E eu enfatizo, nos Estados Unidos! Lá, devido a grandes produtividades de óleo e gás a partir de folhelhos, o país tornou-se autossuficiente em gás e diminuiu consideravelmente a importação de óleo. A despeito do que se anuncia febrilmente e erroneamente na imprensa leiga e especializada, em nenhum outro país do mundo, produções a partir de recursos não-convencionais foram reportadas. Ao contrário, em alguns países como a Inglaterra e a França tais produções foram proibidas, devido aos problemas ambientais reportados nos Estados Unidos.

O que existe hoje em dia é uma tremenda pressão e marketing por parte das companhias de serviço detentoras do know-how destas tecnologias especiais para venderem seus serviços fora dos Estados Unidos. Igualmente, as companhias operadoras de E&P tentam obter posições privilegiadas em países onde as condições geológicas e operacionais dos Estados Unidos possam se repetir. O problema é que as condições geológicas dificilmente se repetem de bacia para bacia. Elas podem ser piores (como na Hungria e na Polônia) ou até ser melhores (como é o caso da Argentina e da China) do que as conhecidas nas bacias norte-americanas.

Para que estes recursos não-convencionais sejam comerciais necessita-se de uma malha de gasodutos, ferrovias e rodovias de tal monta que apenas nos Estados Unidos pode ser encontrada.

O que definitivamente não se repete em nenhum país do mundo são as condições operacionais e de infra-estrutura existentes nos Estados Unidos. Para que estes recursos não-convencionais sejam comerciais necessita-se de uma malha de gasodutos, ferrovias e rodovias de tal monta que apenas nos Estados Unidos pode ser encontrada. Necessita-se de um mercado estabelecido e acostumado ao consumo de gás. Enfim, o casamento de condições geológicas, operacionais e de infra-estrutura tão favorável como o que aconteceu nos Estados Unidos, dificilmente se repetirá em um futuro próximo em qualquer outro país.

No Brasil, muito se fala no potencial do shale gas das bacias Paleozóicas. Descartam-se imediatamente para este propósito as bacias do Solimões e Amazonas pela suas localizações remotas. A prospecção e produção de shale gas requerem civilização próxima. Restam, portanto, as bacias do Parnaíba e Paraná. Infelizmente, os folhelhos destas bacias possuem teores de carbono orgânico muito inferiores aos dos folhelhos de mesma idade norte-americanos. Além disto, seus processos de maturação também são não-convencionais, a partir do aquecimento por intrusões de diabásio (e não por subsidência e soterramento normais, como na maioria das bacias sedimentares do mundo). Isto fragmenta em muito os chamados sweet spots (áreas com maiores concentrações de gás nos folhelhos) tornando-os pequenos, separados e difíceis de predizer.

Os poços nestas bacias brasileiras custam na ordem de dezenas de milhões de dólares. Nos Estados Unidos poços em bacias homólogas custam menos que 10 milhões de dólares. E há que se perfurar dezenas a centenas de poços para se esgotar um único sweet spot, tendo em vista que as produções de poços individuais são pequenas e de curta duração. Além disso, no Brasil, não há nenhuma malha de gasodutos razoavelmente densa em cima das bacias paleozóicas.

Nas áreas superficiais das bacias paleozóicas, não há mercado estabelecido e fiel para gás. Para as bacias de idade Proterozóica, a pesquisa de shale gas é revestida de um risco ainda maior, já que geologicamente, as chances de se encontrar folhelhos com alto teor de matéria orgânica são menores ainda do que nas Paleozóicas. Para estas, fica a esperança de produzir gás a partir de fractured reservoirs, reservatórios em arenitos e carbonatos fechados mas que possuam quantidades comerciais de gás em sua rede de fraturas. É neste recurso não-convencional que a maioria das companhias operadoras na Bacia do São Francisco deverá concentrar suas futuras atividades.

Restam, então, as tradicionais e pequenas bacias terrestres de idade Cretácica (Potiguar, Sergipe-Alagoas, Recôncavo, Espírito Santo). Nestas, sim, os folhelhos possuem teores altos de matéria orgânica, suas maturações foram atingidas por processos geológicos convencionais, os sweet spots devem ser densos e concentrados, fáceis de se predizer e, na superfície, existe certamente uma malha de gasodutos típica de qualquer bacia produtora de óleo e gás madura. Principalmente, nas bacias do Recôncavo e Potiguar.

Potenciais não podem ser comparados com recursos, recursos não podem ser comparados com reservas. Cada um tem um grau associado de incerteza quanto à sua existência.

Consequentemente, o mercado para gás nestas regiões também é melhor estabelecido do que em outras regiões não petroleiras. Surge, portanto, uma possibilidade de reavivamento destas bacias aparentemente esgotadas: a exploração não só de shale gas, mas também de shale oil. Para isto, tecnologia específica, grandes somas de recursos financeiros e um extremo cuidado ambiental são necessários. Pequenas firmas de petróleo dificilmente terão estas capacidades. Tem-se assim um nicho para que companhias médias a grandes, detentoras destas características, possam voltar a atuar nas bacias terrestres marginais brasileiras. Ou então, surge a chance para que grupos de investidores e companhias de serviço atuem junto a empresas pequenas nacionais que possuam um corpo técnico já montado, financiando-as e equipando-as tecnologicamente para estes desafios.

Um lembrete…….

E, por último, nunca esqueçam que a maneira correta de se anunciar potenciais, recursos, reservas e estimativas de produções petrolíferas é sempre através de intervalos de números associados às probabilidades de aqueles números ocorrerem. O mundo geológico é um mundo probabilístico, não determinístico. Portanto, neste universo, números nada significam se não estiverem associados à probabilidade de eles ocorrerem. Engenheiros, economistas e empresários são treinados para serem precisos e têm a falsa impressão de viverem em um mundo determinístico. Frequentemente, anunciam números únicos para certas grandezas sem associá-los ao risco e comparam números de grandezas em faixas de incertezas completamente distintas.

Potenciais não podem ser comparados com recursos, recursos não podem ser comparados com reservas. Cada um tem um grau associado de incerteza quanto à sua existência. Estas grandezas não podem ser comparadas, muito menos somadas. Dentro da mesma categoria de incerteza (potencial, recurso e reserva) números só poderão ser somados se tiverem sido previamente ponderados pelos seus riscos associados. Em suma, quando o leitor se deparar com notícias de volumes de hidrocarbonetos, indague sempre em que faixa de incerteza de sua ocorrência se situa aquele número e qual a probabilidade de aquele número ocorrer dentro daquela faixa. Desta maneira, o investidor que possui o dinheiro e que certamente sabe muito bem o risco que está disposto a assumir terá uma melhor noção se deve ou não investir no empreendimento anunciado. Assim, evitar-se-ão eventuais desapontamentos e/ou cobranças por expectativas não alcançadas.

Pedro Victor Zalán é geólogo e consultor da ZAG Consultoria em Exploração de Petróleo Ltda

Autor: carlosadoria

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