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UM SISTEMA INTERLIGADO HIDROEÓLICO PARA O BRASIL.

 

Um sistema interligado hidroeólico para o Brasil

Joaquim F. de CarvalhoI; Ildo L. SauerII

RESUMO

Discute-se neste artigo a possibilidade que se abre ao Brasil, de – graças a seus imensos potenciais hídrico e eólico – produzir, de forma renovável e sustentável, toda a energia elétrica que consome atualmente e consumirá a partir de 2050, quando, segundo o IBGE, a população estará estabilizada em 215 milhões de habitantes.

Palavras-chave: Energia renovável, Sistema elétrico sustentável, Segurança elétrica.


ABSTRACT

This paper deals with the possibility that Brazil has – thanks to its immense hydroelectric and wind potentials – to produce in a sustainable way all the electrical energy it consumes nowadays and will consume from 2050 on, when, according to the IBGE, the population will be stabilized at 215 million people.

Keywords: Renewable energy, Sustainable electric system, Electrical safety.


Introdução

O Brasil dispõe de potenciais hídrico e eólico que lhe abrem a possibilidade de produzir, de forma renovável e sustentável, toda a energia elétrica que consome no presente e consumirá a partir de 2050, quando, segundo o IBGE, a população estará estabilizada em 215 milhões de habitantes.

A interligação dos parques eólicos com a rede hidrelétrica, visando estruturar um sistema hidroeólico, contribuirá para suavizar a intermitência dos ventos, pois isso permite que se firme a energia eólica, mediante a economia da água dos reservatórios hidrelétricos, para ser usada na geração de eletricidade durante as estações secas, nas quais normalmente os ventos são mais fortes e fartos (Carvalho; Sauer, 2012).

A interligação dos parques eólicos entre si também contribui para amenizar o problema da intermitência dos ventos, por meio do chamado “efeito portfólio”, pelo qual, à semelhança de uma carteira de ações na bolsa de valores, a produção conjunta de todos os parques varia menos do que as produções individuais de cada um, isoladamente.

Graças ao seu imenso potencial hidrelétrico – e à possibilidade, ainda existente, de se implantarem grandes reservatórios de acumulação -, o Brasil tem uma extraordinária vantagem comparativa em relação aos Estados Unidos e à maioria dos países europeus e asiáticos, que são obrigados a apelar para as usinas termelétricas convencionais ou para as centrais nucleares.

Há, ainda, o potencial de espécies vegetais direta ou indiretamente aproveitáveis como fonte de energia, como a cana de açúcar, por exemplo.

Pequenas e médias usinas termelétricas a bagaço de cana poderiam, em conjunto, adicionar ao sistema interligado uma capacidade da ordem de 15 GW, numa estimativa conservadora (Única, 2008).

O potencial hidrelétrico

Ao lado de requisitos técnicos, econômicos e ambientais, o aproveitamento do potencial hidrelétrico deve respeitar o direito dos habitantes das regiões a serem alagadas, cabendo ao governo a responsabilidade de acomodar as populações ribeirinhas, mediante a execução de programas de reassentamento planejados em cooperação com as lideranças locais.

Essa é uma conditio sine qua non para a construção de reservatórios de acumulação na Amazônia, sem os quais a curva de armazenamento de energia será cruzada pela curva de aversão ao risco de escassez – e o sistema elétrico brasileiro entrará em colapso.

Determinados segmentos da sociedade, no entanto, têm a percepção de que a geração hidrelétrica é invariavelmente deletéria, por causar a “artificialização das bacias hidrográficas” e a degradação da qualidade de vida das populações locais.

Devido a essa percepção equivocada, o Brasil corre o risco de ser obrigado a imitar países que, não dispondo de vantagens como as brasileiras, têm que apelar para as ambientalmente deletérias usinas termelétricas convencionais e/ou para as centrais nucleares, expondo suas populações ao risco de acidentes catastróficos, como os que por muito pouco não aconteceram há 33 anos em Three Mile Island, nos Estados Unidos, e há 29 anos em Saint-Laurent-des-Eaux, na França – e de fato aconteceram há 26 anos em Chernobyl, na Ucrânia, e há dois anos em Fukushima, no Japão.

Na verdade, os reservatórios hidrelétricos podem ser aproveitados para múltiplas finalidades, tais como regularização de vazões, transporte fluvial, irrigação de grandes áreas visando à produção agrícola, pesca interior, turismo ecológico etc. Todos esses usos requerem a proteção das nascentes e a preservação das matas ciliares, sendo, portanto, ambientalmente benéficos – ao contrário do que supõem os adversários emocionais dos reservatórios hidrelétricos.

Um notável exemplo de uso múltiplo de bacia hidrográfica é o da usina hidrelétrica de Três Marias, originalmente projetada apenas como reservatório de regularização, para irrigar 100 mil hectares do Projeto Jaíba, em Minas Gerais. Esse reservatório (que cobre uma área maior do que o dobro da Baía da Guanabara) é responsável pelo desenvolvimento da outrora paupérrima região nordeste de Minas. A geração hidrelétrica foi apenas uma decorrência de sua construção.

Outro exemplo é o da hidrelétrica de Sobradinho, que permitiu o desenvolvimento do maior polo de fruticultura irrigada do Brasil (Veiga Pereira et al., 2012).

Ainda outros exemplos são algumas hidrelétricas da Light e da Cesp, cujos reservatórios regularizam a vazão da bacia do Rio Paraíba do Sul e permitem a captação de água para a região metropolitana do Rio de Janeiro e algumas cidades do trecho paulista daquela bacia.

Segundo a Empresa de Pesquisa Energética, o potencial hidrelétrico brasileiro passível de ser técnica e economicamente aproveitado nas atuais condições de tecnologia é de 250 GW, dos quais 83 GW já estão em aproveitamento (EPE, 2012).

Dos 167 GW que ainda poderiam ser aproveitados, cerca de 108 GW situam-se na Amazônia e 59 GW nas demais regiões do país.

Admitamos que, por motivos sociais e ambientais, 20% do potencial amazônico permaneçam intocados. Admitamos também que, devido a impactos de mudanças climáticas, caia em cerca de 15% a energia natural afluente, assegurada pelo fluxo dos rios da região (Schäffer, 2011).

Nesse caso, restariam 73 MW a serem instalados na Amazônia. Suponhamos, ainda, que 10% do potencial das demais regiões fiquem intocados e desconsideremos as previsões de que as mudanças climáticas causarão aumentos de vazão nos rios das regiões Centro-Sul e Sul. Sobraria, portanto, um potencial da ordem de 53 GW, fora da Região Amazônica.

Assim, em adição aos 83 GW já em aproveitamento, ainda poderiam ser construídas hidrelétricas totalizando uma capacidade da ordem de 126 GW, de modo que o parque hidrelétrico brasileiro, como um todo, poderá ter uma capacidade total de 209 GW.

A fim de assegurar que a energia armazenada seja suficiente para suprir o sistema durante as estações secas, o volume global dos reservatórios brasileiros deverá duplicar, tornando indispensável a implantação dos grandes reservatórios já inventariados e ambientalmente passiveis de serem aproveitados, em particular na Amazônia. Nesse caso, a área alagada seria inferior a 0,6% da área daquela região (incluindo a área normalmente já ocupada pelos rios, nas estações chuvosas). Parece claro que tal impacto pode ser assimilado em pouco tempo pelo ecossistema regional.

Assinale-se que alterações causadas por desmatamentos comprometeriam a vazão dos rios, inviabilizando as próprias hidrelétricas (Carvalho, 2012). Assim, ao atribuir concessões para a exploração dessas usinas, o governo deve adotar a política de obrigar contratualmente (sob pena de multas e cassação das concessões) os concessionários a manterem guardas florestais, com a atribuição de fiscalizar e proteger as nascentes, matas ciliares e outros ecossistemas sensíveis, situados na região de influência dos reservatórios.

O potencial eólico

Em 2001, o Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Eletrobras/Cepel) realizou um inventário do potencial eólico brasileiro, estimando-o em 143 GW para turbinas encontradas no mercado, instaladas em torres de 50 metros.

Estudos mais recentes mostram que, com o desenvolvimento de turbinas mais eficientes e torres mais altas, o potencial pode superar 280 GW.

As perspectivas de se inventariar um potencial ainda maior são muito auspiciosas, com os ganhos de escala e aprendizado, resultantes do desenvolvimento tecnológico e da nacionalização da cadeia produtiva eólica (Ricosti; Sauer, 2012).

Acresce que as mudanças climáticas deverão causar um impacto bastante positivo sobre o potencial eólico (Schäffer, 2011).

Naturalmente, a implantação de parques eólicos deve ser planejada por forma a evitar que interfiram nas rotas de migração da fauna alada, ou provoquem impactos acústicos acima de limites toleráveis, em regiões habitadas.

Um sistema hidroeólico

Um sistema interligando as hidrelétricas com as eólicas e as termelétricas a biomassa, com as capacidades e fatores de capacidade indicados na Tabela 1, poderá gerar cerca de 1.103 GWh por ano.

As usinas térmicas a gás natural já existentes seriam acionadas (com suprimento flexível de combustível) apenas em períodos hidroeólicos críticos, otimizando a operação do sistema e servindo como seguro para reduzir riscos de racionamento (Carvalho; Sauer, 2012).

Para isso, será necessário realizar grandes investimentos na modernização dos sistemas de transmissão e distribuição, inclusive mediante o emprego de tecnologias * Para isso, será necessário realizar grandes investimentos na modernização dos interligado, o f.c. deve superar a média ponderada dos sistemas isolados avançadas, como as redes inteligentes (smart grids), para que o despacho dos parques eólicos seja continuamente associado ao despacho das hidrelétricas, elevando consideravelmente o fator de capacidade do sistema interligado (Carvalho, 2012).

Igualmente necessário é que o planejamento do setor energético seja mais abrangente, siga diretrizes estratégicas bem definidas para o longo prazo e seja normativo, diferentemente dos planos feitos nos dias de hoje, que são influenciados pela conjuntura política, por pressões corporativas e até por interesses mercantis de curto prazo.

E será indispensável que a Empresa de Pesquisa Energética e o Operador Nacional do Sistema sejam formalmente vinculados, a fim de compatibilizar os planejamentos de curto e médio prazos, com a operação do sistema; evitando os desentendimentos que têm colocado em risco o suprimento de energia, embora a afluência mínima dos rios brasileiros, em seu conjunto, não tenha passado por mínimos inferiores a 15% abaixo da afluência média, nos últimos dez anos.

Considerações finais e conclusão

Neste artigo não foi considerado o potencial fotovoltaico, o qual – com o desenvolvimento tecnológico nos campos dos semicondutores e das redes inteligentes – poderá desempenhar um papel muito importante no sistema elétrico brasileiro.

Tampouco foi considerado o potencial energético dos mares (energia das ondas, das marés, das correntes marinhas etc.). Considerando que o Brasil tem mais de oito mil quilômetros de costa atlântica, presume-se que este potencial seja significativo.

No artigo também não foi tomado em conta o aproveitamento de resíduos urbanos em minicentrais termelétricas que, em conjunto, podem ter um potencial muito grande, dada a magnitude do problema colocado pelo descarte desses resíduos, num pais de população urbana superior a 160 milhões de habitantes.

Quanto aos custos da energia elétrica, esses compõem-se de uma parte fixa, correspondente à amortização do capital investido – e de uma parte administrável, composta pelas despesas necessárias ao funcionamento da usina geradora.

A parte fixa abrange as despesas incorridas na implantação da usina (projetos, equipamentos, construção, montagem e testes), e a parte administrável compreende as despesas de operação e manutenção, seguros, salários, encargos trabalhistas etc. Modicidade tarifária implica racionalização dessas despesas, sendo, portanto, incompatível com pressões corporativas e interesses mercantis de curto prazo.

No caso das usinas nucleares, há também os custos do combustível, do descomissionamento ao fim da vida útil e da administração dos rejeitos radiativos.

Os custos efetivamente praticados devem ser estabelecidos por meio de negociações entre o poder concedente e o investidor, nas quais entram critérios subjetivos tais como “atratividade” para o investidor e “razoabilidade” para os consumidores; daí o imperativo ético de que o processo seja absolutamente transparente.

Calcula-se que, no Brasil, o custo da energia hidrelétrica fique em cerca de R$ 80/MWh e o da nuclear em R$ 200/MWh (Carvalho; Sauer, 2009).

Entre ambos vem a energia eólica, que foi negociada por aproximadamente R$ 100/MWh, em recentes leilões promovidos pelo Ministério de Minas e Energia.

À guisa de conclusão, podemos afirmar que um sistema hidroeólico estruturado nas condições brasileiras seria inteiramente sustentável e teria capacidade para cobrir indefinidamente a demanda brasileira por energia elétrica.

De fato, como foi mostrado no item anterior, graças aos seus imensos potenciais hídrico e eólico, o Brasil poderá estruturar um sistema hidroeóloico capaz de gerar, de forma renovável e sustentável, cerca de 1.103 GWh por ano.

Assim, a partir de 2050, quando, segundo o IBGE, população estará estabilizada em 215 milhões de habitantes, o sistema hidroeólico teria capacidade para oferecer ao país, em caráter permanente, algo em torno de 5.100 kWh por habitante por ano.

Isso significa que, apenas com o aproveitamento de fontes de energia limpas e sustentáveis, o Brasil poderá, em matéria de energia elétrica, equiparar-se a países europeus altamente desenvolvidos.

Por fim, é importante ter em mente que, a partir de um patamar razoável, o bem-estar de uma sociedade não depende, necessariamente, do crescimento à outrance da produção física, nem de um grande consumo de energia.

Países como a Suíça e a Alemanha, por exemplo, não crescem desmesuradamente e, em termos per capita, consomem três vezes menos energia do que os Estados Unidos, no entanto os suíços e alemães desfrutam de uma qualidade de vida superior à dos norte-americanos.

Em outras palavras, o desenvolvimento deve ser buscado através do aprimoramento da educação e da saúde pública, do aperfeiçoamento dos processos de produção e da qualidade dos produtos, da racionalização da infraestrutura de telecomunicações e dos sistemas de transportes e assim por diante – e, naturalmente, do uso racional da energia para essas finalidades (Carvalho, 2011).

Se não for assim, carece de sentido o crescimento a qualquer custo, tão ansiosamente almejado por determinadas correntes de economistas.

Referências

CARVALHO, J. F. Measuring economic performance, social progress and sustainability using an index. Renewable and Sustainable Energy Reviews, v.15, p.1073-9, 2011.

______. O espaço da energia nuclear no Brasil. Estudos Avançados, v.26, n.74, p.293-308, doi:10.1016/j.enpol.2008.12.020, 2012.

CARVALHO, J. F.; SAUER, I. L. Does Brazil need nuclear power plants? Energy Policy, v.37, p.1580-84, 2009.

______. Um sistema interligado hidroeólico para o Brasil, Valor Econômico, 1º nov. 2012.

EPE – Balanço Energético Nacional, 2012.

RICOSTI, J. C.; SAUER I. L. An Assessment of Wind Power Prospects in the Brazi- lian Hydrothermal System. Renewable and Sustainable Energy Reviews, v.19, p.742-53, 2012.

SCHÄFFER, R. Vunerabilidade do sistema hidroelétrico brasileiro às mudanças climáticas no Brasil. In: IV CONFERÊNCIA REGIONAL SOBRE MUDANÇAS GLOBAIS: O Plano Brasileiro para um Futuro Sustentável – Painel Segurança Hídrica, 2011.

ÚNICA – União da Indústria da Cana de Açúcar. 2008, A importância do etanol e da cogeração na atual matriz energética brasileira e os principais desafios.

VEIGA PEREIRA, M. et al. Energia hidrelétrica e outras fontes renováveis. In: Opção pela Energia Hidrelétrica e Outras Fontes Renováveis. Forum Nacional, INAE, 2012.

Estudos Avançados
versão impressa ISSN 0103-4014
Estud. av. vol.27 no.77 São Paulo 2013
http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142013000100009

IPesquisador visitante do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP. @ – jfdc35@uol.com.br
IIProfessor titular de Energia do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP. @ – illsauer@iee.usp.br


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DEBATE:A VENEZUELA PÓS CHAVES.

Debate: A Venezuela Pós-Chávez

Com o seu novo presidente recém-eleito, por uma pequena diferença de votos em relação ao concorrente, a Venezuela tem pela frente uma série desafiadora de tarefas a cumprir. Com o intuito de contribuir para a análise de algumas dessas questões, o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, com o apoio da revista Carta Capital, organizou o debate A Venezuela Pós-Chávez, que abordará as dimensões política, econômica, social e da integração latino-americana. Dia 30 de abril, terça-feira, a partir das 9h30 no Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento Avenida República do Chile, 100/ Subsolo 1, salas 15-17 – Centro Rio de Janeiro RJ


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A PETROBRAS NO OLHO DO FURACÃO.

Ex-presidente da empresa, o geólogo José Eduardo Dutra acredita que a companhia atravessará a tormenta produzida por “interesses oportunistas” e chegará a 2017 produzindo 2,7 milhões de barris por dia

No dia 31 de dezembro de 2002, a Petrobras tinha um valor de mercado de US$ 15 bilhões, e na época era a 15ª empresa de petróleo do mundo; em 20 de março deste ano – mesmo depois de ter sofrido uma desvalorização de US$ 70 bilhões –, estava valendo US$ 132 bilhões, e é a sétima do ranking mundial. Em 2002, os investimentos feitos pela companhia consumiram R$ 8 bilhões; em 2012, alcançaram R$ 83 bilhões. A empresa produzia 1,5 milhão de barris em 2002; em 2012, foram 2 milhões. Os números são listados pelo geólogo e diretor corporativo da Petrobras, José Eduardo Dutra. Em entrevista à Rádio Brasil Atual, Dutra, que presidiu a empresa de 2003 a 2005, considera apenas essa breve comparação suficiente para desmoralizar o que chama de “falácia” com que integrantes do PSDB tentam desqualificar a companhia.

Dutra reconhece a recente desvalorização sofrida pela empresa e a atribui a “questões circunstanciais” a que toda companhia do setor de petróleo está sujeita. O que surpreende, segundo ele, é o discurso “desmoralizante” da oposição ao governo federal, para quem é conveniente comparar os resultados da empresa com os dos dois anos anteriores, e não com 2002, quando a gestão da Petrobras estava sob a responsabilidade do governo Fernando Henrique Cardoso. Na entrevista, o diretor abordou diversos aspectos a respeito da situação da empresa e demonstrou indignação com a “luta política” travada em torno do prestígio da companhia. A seguir, os principais trechos (a íntegra pode ser ouvida no site – o atalho é http://bit.ly/rba_dutra).
Interesses envolvidos

“O Congresso Nacional aprovou, entre 2009 e 2010, nas áreas do pré-sal, a substituição do modelo de concessão (para as empresas de exploração) pelo modelo de partilha de produção. O que é isso? Vai ganhar o direito de explorar a área quem oferecer um percentual maior de petróleo à União. Ou seja, a empresa exploradora descobre o petróleo e uma parte significativa, em torno de 50%, vai para a União. Ficou também estabelecida a obrigatoriedade de a Petrobras ter uma participação mínima de 30% sobre os campos do pré-sal. Agora, alegam que a Petrobras não tem capacidade de operar e desenvolver a produção do pré-sal. O que é um absurdo, porque é uma das empresas mais competentes em termos de desenvolvimento e tecnologia em águas profundas. Então, o que temos aí é uma mistura de oportunismo político com interesses inconfessáveis de grandes grupos econômicos que não concordam com o novo modelo, aprovado pelo Congresso.”
Influência no mercado acionário
josé

“A empresa tem capital aberto e ações negociadas nas bolsas de São Paulo e de Nova York. Esse é um tipo de mercado em que há acionistas que atuam com interesses imediatos e outros investidores que não se assustam com as oscilações do mercado porque acreditam na Petrobras do ponto de vista estratégico. E é claro que tem acionistas com uma visão imediatista, interessados no retorno imediato das ações, que preferem que uma empresa invista menos e aumente mais o lucro e, portanto, os dividendos pagos. Mas é importante registrar que, mesmo nessa situação – em que a Petrobras aumentou muito os investimentos –, o valor de mercado da empresa hoje é quase dez vezes maior que em 2002.”
Índice de produtividade e qualidade humana

“O índice exploratório da Petrobras em 2012 foi de 64%, o que quer dizer que em cada dez postos perfurados foram encontrados petróleo em quase sete. Sabe qual é a média de sucesso da primeira empresa do mundo? Trinta por cento. E, na área do pré-sal, o risco de não achar petróleo é muito menor – o índice de sucesso foi de 82%. Isso demostra a capacidade do corpo técnico da companhia. E nos revolta ver pessoas tentando desqualificar a competência da empresa. No ano passado a Petrobras produziu nos campos do pré-sal 300 mil barris de óleo. Para ser ter uma ideia, no golfo do México demorou 17 anos entre a descoberta e a produção de 300 mil barris por dia. No Mar do Norte, demorou nove anos. No pré-sal brasileiro chegou-se a uma produção de 300 mil barris por dia em sete anos. É uma façanha. A Petrobras tem um corpo de empregados, técnicos, geólogos, engenheiros com capacidade reconhecida. É uma referência internacional, e, por interesses oportunistas e eleitorais, acabou no olho do furacão. Mas vamos atravessar essa tormenta e chegar a 2017 produzindo 2,7 milhões de barris por dia.”
Conteúdo nacional

“O Lula dizia o seguinte: ‘Até dez anos atrás, este estaleiro (de Angra dos Reis) tinha milhares de pessoas trabalhando, e hoje está às moscas, porque a indústria naval brasileira, que tinha chegado a ser a segunda mais importante do mundo na década de 1970 e 1980, foi totalmente dizimada por falta de política e investimento’. Pois bem, a partir da nossa gestão, introduzimos o conceito de conteúdo nacional mínimo nas encomendas da Petrobras. Isso significa a companhia ter um papel de indutor do desenvolvimento industrial do país. Exatamente em função das encomendas da Petrobras, das plataformas, das sondas, que passaram a exigir um conteúdo nacional, mas não um conteúdo nacional que não possa ser atendido, hoje, em média, 65% das encomendas da Petrobras são construídas no Brasil. A partir do momento em que você aumenta as encomendas no Brasil, os empresários podem investir mais, podem treinar melhor os engenheiros e os técnicos capacitados, e isso aumenta a produtividade. Esse é um papel que nós consideramos fundamental.”
Saída da estagnação

“Há anos o parque de refino brasileiro ficou estagnado. Em 2003, a última refinaria construída no Brasil era a de Henrique Lage, em São José dos Campos, inaugurada em 1982. Hoje, após investimentos, está sendo construída a refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, o complexo petroquímico do Rio de Janeiro, o Comperj, e houve aumento da capacidade das refinarias já existentes. O refino em 2003 era em torno de 1,7 milhão de barris por dia; hoje é de 2,2 milhões de barris. Muita coisa precisou ser feita nesse período, daí os grandes investimentos. Teve atraso? Teve atraso, sim. Como a Petrobras ficou mais de 20 anos sem construir uma refinaria, teve de reaprender na prática. Isso fez com que tivéssemos atrasos na Refinaria Abreu Lima, na região metropolitana de Recife, mas ela vai começar a produzir em 2014, e vai reduzir esse déficit em relação à oferta de combustível do Brasil.”
Sintonize

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Fonte: Rede Brasil Atual


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ANGRA 3.

 A Eletronuclear pretende lançar no próximo mês o edital da licitação, por menor preço, para os serviços de montagem eletromecânica da usina nuclear de Angra 3. Os contratos, estimados em aproximadamente R$ 2 bilhões, são os mais valiosos do empreendimento ainda em disputa. Após a realização da etapa de pré-qualificação técnica e do aval concedido pelo Tribunal de Contas da União (TCU) para a continuidade do processo, apenas dois consórcios permanecem na disputa. Um deles é o UNA 3 (formado pelas construtoras Andrade Gutierrez; Norberto Odebrecht; Camargo Corrêa e UTC Engenharia). O outro é o Angra 3 (composto por Queiroz Galvão, Empresa Brasileira de Engenharia e Techint). Os contratos são divididos em dois pacotes. O primeiro está relacionado ao sistema primário, que cobrirá as atividades da área nuclear, no valor estimado de R$ 850 milhões. O segundo é voltado para os sistemas convencionais da usina, no valor previsto de R$ 1,08 bilhão. Segundo o assessor da presidência da Eletronuclear Leonam dos Santos Guimarães, somente após a assinatura dos contratos de montagem eletromecânica e de fornecimento de equipamentos de instrumentação e controle, este com a francesa Areva, é que será possível prever, com algum fundamento, uma data para o início de operação da terceira usina nuclear brasileira. Guimarães, porém, já admite uma nova alteração no cronograma atual do empreendimento. “O prazo anterior era dezembro de 2015. Aí fizemos uma atualização para junho de 2016. Deve haver uma nova atualização. Mas qualquer previsão que se faça hoje ainda contém muita incerteza. Afirmar qualquer coisa agora seria muito imprudente”, disse Guimarães, em seminário sobre energia nuclear, ontem, no Rio de Janeiro. Segundo ele, os atrasos no cronograma impactam nos juros durante a construção da usina e afetam o fluxo de caixa do projeto, mas não têm efeito sobre o valor de investimento inicial, de R$ 10,3 bilhões, nem tiram a característica de atratividade do empreendimento, de 1.405 megawatts (MW) de capacidade. Já a usina Angra 1, que estava desligada desde a semana passada, foi reconectada ontem ao sistema elétrico. Segundo o assessor da diretoria de Operação da Eletronuclear Luiz Porto, a usina está em processo de elevação de potência e deve alcançar a capacidade plena de produção (640 MW) até o fim desta semana. “Vamos repetir alguns testes e alguns patamares de potência de forma que possamos chegar aos 100% com bastante tranquilidade até o fim da semana”, disse. O desligamento automático da usina, cujo motivo até então era desconhecido, ocorreu por um defeito em um cartão eletrônico do sistema de proteção do reator. O problema foi resolvido com a substituição do cartão defeituoso. “Houve um desligamento automático do reator porque o sistema de proteção do reator funcionou. Não houve nenhum risco. O sistema atuou como deveria atuar. Quando há um mau funcionamento, desliga-se o reator até que se entenda o que aconteceu”, explicou Porto.(Valor Econômico/Redação)


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INVESTIMENTOS EM RENOVÁVEIS.

 Investimento em renováveis deve aumentar 230% até 2030

 
Melhorias no custo e na competitividade das fontes limpas farão com que setor contribua com entre 69% e 74% da nova capacidade instalada até 2030, apesar das atuais dificuldades da indústria de energias renováveis
 
Jéssica Lipinski, Instituto CarbonoBrasil

Se o desenvolvimento de energias limpas significa uma esperança de limitação das emissões de gases do efeito estufa, o novo relatório da consultoria Bloomberg New Energy Finance (BNEF) traz boas notícias para a mitigação das mudanças climáticas. O documento, publicado nesta segunda-feira (22), afirma que os investimentos em renováveis podem crescer 230% nas próximas duas décadas, chegando a US$ 630 bilhões anuais até 2030.

Segundo a consultoria, as energias renováveis podem ser responsáveis por entre 69% e 74% da nova capacidade instalada até 2030 no cenário mais provável, considerado ‘o novo normal’. Nesse caso, as energias eólica e solar corresponderiam às maiores participações na nova capacidade de geração de energia, contribuindo 30% e 24%, respectivamente. O carvão, o gás natural e o petróleo contribuiriam com 25%, e o restante seria nuclear.

De acordo com a BNEF, esse desenvolvimento das renováveis seria devido principalmente à redução de custos nos setores de energia eólica e solar, bem como ao crescimento de fontes não intermitentes de energia limpa, como a hidrelétrica, a geotérmica e a de biomassa.

Em termos do total de energia produzida, a participação das renováveis aumentaria de 22% em 2012 para 37% em 2030. A projeção para o total de capacidade de energia renovável instalada até 2030 é 25% maior do que a estimativa anterior, de 3500 GW.

Uma estimativa mais pessimista, considerada pela Bloomberg como ‘tradicional’, sugere um investimento de US$ 470 bilhões por ano. Já no panorama mais otimista, classificado pela BNEF como ‘eliminando as barreiras’, as exigências de capital para as energias renováveis podem chegar a US$ 880 bilhões anuais até 2030, o que significaria um aumento de 22% nos investimentos em infraestrutura, sistemas de transmissão, smart grids, armazenamento etc.

As previsões foram retiradas do Modelo Global de Energia e Emissões da BNEF, que analisa os principais fatores que influenciarão o futuro do mercado de energia. Para Guy Turner, diretor de economia e commodities da consultoria, as energias renováveis devem se tornar protagonistas no setor energético.

“Essa é a primeira vez que produzimos uma análise tão detalhada do futuro sistema de energia mundial sob diferentes cenários. Isso ressalta que, apesar das notícias recentes que mostram uma desaceleração no investimento em energias limpas desde 2011, as tecnologias renováveis formarão a âncora de novos acréscimos na capacidade de geração, mesmo sob uma visão menos otimista da economia mundial e de escolhas políticas”, colocou Turner.

“O principal fator para o futuro crescimento do setor renovável ao longo desse período é uma mudança do apoio político para a queda nos custos e a demanda natural”, acrescentou o diretor de economia e commodities da Bloomberg.”

O relatório e mais informações podem ser adquiridos pelo site da BNEF.  


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O DESAFIO ENERGÉTICO CHINÊS.

Por Ronaldo Bicalho e Felipe de Souza

bicalho042013Em Dezembro de 2012, a China tomou o lugar dos Estados Unidos como o maior importador de Petróleo do mundo. Nesse mês, de acordo com dados preliminares da US Energy Information Administration, a China importou o correspondente a 6,12 b/d enquanto os Estados Unidos importaram 5,98 b/d. Os americanos lideravam o ranking dos importadores desde meados dos anos 1970 e, apesar dos dados se referirem apenas ao mês Dezembro e no consolidado do ano os EUA seguirem liderando, analistas acreditam que essa ultrapassagem mensal sinaliza claramente a tendência de longo prazo de supremacia chinesa nas importações mundiais de petróleo.

Embora a China seja o maior produtor de carvão do mundo, a forte expansão do consumo e os preços domésticos desfavoráveis fizeram com que a importação de carvão começasse a crescer a partir de 2002; de tal forma que em 2009 o país já era um importador líquido e em 2010 ocupava o segundo lugar no ranking mundial de importações carboníferas, perdendo apenas para o Japão.

Mesmo no caso do gás natural, a China se tornou um importador dessa fonte de energia pela primeira vez em 2007. Desde então a participação da importação líquida cresceu fortemente, saltando de 2% do consumo nesse ano para 22% em 2011.

Assim, a China, que em 1971 apresentava uma importação líquida negativa, correspondente a (-) 0,5% da sua demanda total de energia, em 2010 importava 14 % da energia que consumia e era responsável por 8% das importações mundiais de energia.

Dessa maneira, o vigoroso crescimento econômico chinês, que levou o país a ultrapassar o Japão e ocupar a posição de segunda maior economia do mundo, foi acompanhado de um forte aumento no consumo de energia, que levou o país a superar os Estados Unidos e, desde 2009, ocupar a posição de maior consumidor de energia do mundo. Mais do que isso, esse boom econômico e essa explosão do consumo de energia foram acompanhados por um acentuado aumento da dependência energética.

Aumento esse que colocou a segurança energética como uma questão essencial para o Estado chinês, gerando consequências que transcendem a política energética e alcançam a grande estratégia geopolítica chinesa.

Dada a extensão do controle do Estado chinês sobre a economia, a gestão dos recursos energéticos é crucial e requer que o governo desempenhe um papel muito mais intrusivo e proativo que no caso das outras grandes economias. Isto implica que a formulação das questões relacionadas à segurança energética na China se pleiteia de forma mais ampla e complexa no que diz respeito aos planos e ações do Estado.

Nesse sentido, é claro para Pequim que a segurança energética é fundamental para a segurança econômica e essa, por sua vez, é essencial para a segurança nacional.

Desde 1949, a China apostou em um desenvolvimento independente que se refletiu em uma estratégia autárquica de abastecimento energético, fundada na autossuficiência, na utilização dos seus próprios recursos para atender à sua demanda de energia.

Assim, explorar e controlar esses recursos fazia parte da própria noção chinesa de soberania.

Essa ênfase na autossuficiência se coaduna com uma concepção de política externa cuja visão do sistema internacional está intimamente ligada a percepção da ameaça externa como sendo fundamental para a construção da identidade do Estado e para a legitimação do regime.

O crescimento da dependência energética representa uma inflexão nessa estratégia, na medida em que ele requer uma integração mais profunda com os mercados financeiros e de energia; ao mesmo tempo em que levanta questões geopolíticas profundas em relação ao papel da China na região.

É evidente que esse conjunto de questões afeta obrigatoriamente a própria concepção da política externa e, em consequência, a própria forma de inserção da china no sistema internacional.

Assim, a maior dependência energética muda não só a política energética chinesa, mas sua política externa. Política externa essa vista como chave para a sua segurança nacional que, nesse caso, significa a manutenção do suprimento energético vital para a sua expansão econômica.

A busca por maior segurança energética está mudando a política energética chinesa e terá impactos significativos no âmbito global.

Uma China ávida por energia e disposta a ir buscá-la onde ela estiver passa a ser um ator chave na evolução da trama energética mundial. Trama essa que provavelmente ultrapassará em muito não só as fronteiras chinesas, mas, acima de tudo, as próprias fronteiras da energia.

Fonte: Blog Infopetro.